sábado, 10 de março de 2012

Dias inesquecíveis no sítio


Quantas e quantas vezes, eu deixei a casa de minha mãe no Beco do Talho, cruzei a Av. José da Cunha. Minha figura esquálida de longa cabeleira escura desfilava sob a sombra dos oitizeiros depois passava em frente a Casa das Irmãs, as devotas freiras da paróquia, as quais faço questão de destacar a Madre Martins e a Irmã Heliege. Uma olhada pela janela lá estava um grupo de jovens a imprimir no mimeografo, o jornal O Ajo, com suas engraçadas fofocas, uma leitura pra lá de divertida. Tempos depois, passei a ser redator das tais fofocas, isso deve ter sido a minha primeira incursão no jornalismo. Um olhar de soslaio naquela movimentação, e seguia em frente, dobrando rapidamente no Beco da Santa. O destino era certo, um pequeno paraíso. A casa que possuía um quintal muito grande, na verdade um sítio bem ali no centro da cidade. Estou falando da maravilhosa residência dos meus padrinhos, Seu Domingos e Madrinha Iaiá. A casa simples possuía um corredor que ia dar na ampla sala onde Seu Domingos, um homem muito bondoso, magro e careca passava a maior parte do tempo numa cadeira preguiçosa. Quando eles me viam abriam um sorriso, pois ali, sempre soube me comportar. Em outros recintos, sempre representei uma ameaça, com a mente voltada para aprontar as maiores traquinagens, sobretudo, causar prejuízos, o que sempre acabava em surras.
Naquele paraíso, que lembra obras de Monteiro Lobato, vivi momentos inesquecíveis, ali sempre fui bem comportado e prestativo, um doce de menino para meus ótimos padrinhos. Logo depois da sala estava a cozinha, nela Madrinha Iaiá, sempre às voltas com preparos deliciosos, pratos que cheiravam tanto que da rua já se sentia o sabor inigualável das comidas deliciosas de sua cozinheira “Jovi”, uma autêntica Tia Anastácia do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ali um esfumaçado fogão de lenha enchia as paredes de fuligem e num arame próximo às telhas escurecidas um arame pejado de mantas de carne seca, lingüiças, barrigas de porco, por meses sob o efeito diurno da fumaça dos deliciosos pratos. Doces maravilhosos de todas as frutas colhidas no seu tempo ali mesmo no quintal
Todas as frutas tropicais eram fartas naquele lugar, e até mesmo algumas exóticas que não se achava na feira. Ali perto da casa, um enorme pé de tangerina, as mais doces do planeta, esta ficava ao lado do pé de carambola, visinho da jaqueira que produzia pequenas jacas duras, que tinham a cor de ouro e causavam inveja ao mel a sua doçura. Os cajueiros e mangueiras pareciam em sintonia produzindo enormes quantidade de frutos.
Mesmo antes de o sol raiar Seu Domingos já estava de enxada na mão capinando, adubando, cuidando de cada cantinho do seu maravilhoso sítio. Por isso o tempo que levava na preguiçosa era mais que merecido. O cheiro de natureza ainda hoje povoa a minha alma. Como eu gostava daquele lugar. Bem no centro da pequena propriedade um cafezal onde se colhia o café que estava sempre cheiroso na mesa. Ah, o café, que café aquele, inigualável. Eu esperava por esse momento com certa ansiedade. Madrinha Iaiá, trocava algumas palavras carinhosas com o marido e lentamente se dirigia à cozinha e com sua voz, que não esqueci o timbre, falava “Jovi faça um café”.
Claro que isso demorava. Ela se dirigia ao quintal onde sobre alguns plásticos estendidos, as frutinhas secavam ao sol. Ela pacientemente apanhava um bocado e colocava numa panela, depois num grande pilão socava, socava por uma meia hora. Depois ia ao fogão de lenha e levava mais algum tempo e trazia de lá uns torrões de cor amarronzado e de novo socava no pilão. Passado uma hora, servia a deliciosa bebida numa chaleira de ferro. O cheiro daquele café era sentido de muito longe. Jamais provei um tão gostoso, era fortíssimo e dava uma energia incrível. As horas no sítio pareciam eternas, entre o cacarejar das galinhas o ciscarem dos pintinhos, o canto de pássaros, a tarde ia caindo do céu.
Hora de voltar para casa. A despedida era um ritual não menos prazeroso, Seu Domingos entrava no quarto, pegava uma cédula (daquelas vermelhas de dez cruzeiros com a foto de Santos Dumont) e agradava seu afilhado, enquanto aos santos pedia proteção para mim e minha família. "Que Deus te abençoe meu filho." Então eu voltava para casa muito feliz, jamais abusava dessas visitas, para não cansar meus adoráveis padrinhos, por isso sempre que eles me viam faziam uma festa.

2 comentários:

  1. Eita coisa boa. Lembranças que andam no compasso da simplicidade e da vida de criança. Como aprendemos por essas bandas. O tantão do nosso caráter que veio daí. Da sabedoria das cadeiras de preguiça, das mãos calejadas dos homens que sabiam que havia o que fazer. E faziam. Assim, bem feito, sem questões ou sofismas.

    Excelente, amigo.

    Abraços

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  2. Você foi categórico José, é isso que precisamos resgatar na sociedade. Grato. Carlos Magno

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