sexta-feira, 30 de março de 2012

Lembranças de bons tempos


Praça Edson impaciente caminhava pra lá e pra cá, em frente à bodega de Zé Correia, tecia um comentário: “magote de zíndio” Os rapazes eram mesmo cheios de artimanha. Os comentários eram desconcertantes. Cucuta, o filho de Dezinho era mestre em tiradas para tirar qualquer um do sério. Outro dia aconteceu um acidente na Rua de Itabaiana, um cara em um fusca bateu na casa de um sujeito chamado Silva. Derrubou a parede e deixou-o muito nervoso. Esse tal Silva falava tão rápido que nem ele mesmo entendia o que dizia, só dava para entender a primeira frase o resto era algo tipo “apatapatápatá”.
Ele vivia pelas ruas escarrerando os moleques que chamavam pelo seu nome “chicha” era assim que ele pronunciava “Silva”. Ele tinha grave problema com a voz. Pois bem no meio daquele tumulto , quando se busca uma explicação para o acidente , Cucuta se aproximou e teceu o seguinte comentário: “A casa é que está errada”, o pobre do Silva quase sofreu um infarto. Outro espetacular gozador era Febrônio, era uma figura hilária, possuidor de um sarcasmo incrível. Ele fazia parte do grupo de escoteiros de Frei Paulo e nos acampamentos era diversão garantida.
Edvaldo era chamado de Neném, um cara super descolado em Frei Paulo, possuía também um senso de humor negro incrível. Estava sempre presente nas atividades jovens, seja no esporte ou no teatro. Na suas representações no teatro de Frei Paulo cabia a ele os papeis mais engraçados. Outro cara incrível, Gilmar de Dezinho era um crítico mordaz de tudo. Participava ativamente das molecadas. Já Muel, filho de Zé Pequeno era tímido, mas muito brincalhão, não participava das molecagens, mas gostava de tecer seus ácidos comentários. Era uma geração cheia de provocação com os mais velhos, mas sempre com respeito. Andavam longamente pelas ruas no aconchego da pequena cidade.
As ações e comentários eram carregados de cinismo e veleidades. Depois eram ruidosas gargalhadas, quando a patota se reunia para passar a limpo as novidades. Muitos desses rapazes estudavam no Colégio Agrícola e passavam os dias esperando o momento de voltar para reunir a turma. Os meninos da época ocupavam-se em peladas nas quadras do educandário, todas as tarde pulavam o muro para jogar bola. E receberem as boas vindas de Lurdão: “Já vem Ladrão” “Já vem Ladrão” ela gritava isso a plenos pulmões, pois a turma fatalmente atacava as fruteiras de seu quintal. Ninguém se intimidava. Enquanto isso Sá Donona com uma bolsa de milho na mão chamava as galinhas “qui,qui qui qui”. O grande quintal era vizinho do educandário e possuía uma grande variedade de frutas. Na quadra as pelejas se desenvolviam hora em paz hora em guerras e pancadarias.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Musas e seresteiros


Houve um tempo que o romantismo transbordava em Frei Paulo. A Praça da Matriz e a do coreto eram as preferidas para a paquera que rolava solta. Mas os amores não correspondidos eram curados com a boemia. E em termos de vida boemia a cidade não deixava a desejar. As noitadas regadas à cerveja e violão eram programas bem interessantes de entretenimento da juventude. Frei Paulo tinha excelentes seresteiros e lindas musas para inspirar. O mais antigo deles era João do Violão, um sujeito alto, muito boa praça que trabalhava como pedreiro, mas nas horas vagas tocava sua viola e agradava aos mais coroas. Seu repertório incluía boleros apaixonados e não faltavam as canções de Nelson Gonçalves e clássicos como "Luar do Sertão", "Cabocla" e até “Três Apitos” do genial Noel Rosa.
Onde havia um violão tinha presença garantida dos seresteiros, eles faziam suas apresentações hora nas praças hora em bares da cidade como “O Cortiço”, “Ponta da Asa” entre outros. As vezes o dia amanhecia em meio às cantorias. Também se reuniam nos bancos da Avenida. As musas também gostavam das apresentações, mas escutava de longe seus apaixonados mostrarem o talento artístico entoando canções românticas como as do rei Roberto Carlos, suas músicas eram as preferidas. Carlinhos de Josino marcou época com sua viola. Tocava muito bem e já participou de inúmeras serestas. Tocava lindas canções de Benito di Paula e não podia faltar “Trem da Onze” de Adoniran Barbosa. Mas todo mundo ficava fulo quando Paulo Boto tentava fazer a segunda voz.
Outro que também marcou época com seu violão foi Fernando, tocava de ouvido e levava qualquer música, era um dos mais completos, excelente músico e conhecedor dos sucessos da época. Outro exímio violonista era Baiano, bem magrinho e usando um cavanhaque, tinha jeitão de artista e tocava muito bem seu violão. Era um dos cantores mais apaixonados, o repertório eclético, mesmo porque estava passando por uma crise sentimental muito grande. Esse era um dos melhores violeiros de Frei Paulo. Outros arranhavam, mas mesmo assim passeava rua acima rua abaixo carregando o instrumento. Eu, Sergio de Zé Pequeno e Lucrécio esse só tocava “Dia de Santo Rei” de Tim Maia. E Carlos Alberto “A desconhecida” de Fernando Mendes.
Frei Paulo sempre foi uma cidade cultural, a música está no sangue do povo. Um exemplo disso é a filarmônica da cidade que forma dezenas de jovens na música clássica. Músicos virtuosos forjados na batuta de João de Santa, mestre que ensinou a muitos jovem a leitura da partitura. As retretas da União Lira Paulistana são inesquecíveis e quem não se arrepia ouvindo lindos dobrados executados na medida exata da perfeição. Os romances iam e vinham, como se diz hoje em dia, a fila anda, e andava também naquela época; deixando alguns corações partidos, mas as mágoas o tempo inexorável fez questão de apagar. Mas os acordes dos violões plangentes estes se reinventam e estão vivos até hoje. E se der saudade, não tem problema, como diz o cancioneiro popular, recordar é viver.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O trago da Ibiracema


Um cenário que não sai de minha mente e que por diversas vezes testemunhei, foi a passagem de centenas de burros carregando barriz de cachaça pela Av. José da Cunha, esses grandes comboios de burros eram vistos passar quase que diariamente. Eles eram responsáveis pela logística da famosa cachaça Ibiracema produzida pela Destilaria Imbira. Viajavam léguas e léguas para escoar a produção da aguardente de Frei Paulo. Quem chegava à cidade, logo ali no Buril já sentia o cheiro forte do caxixe, esse é o dejeto da produção da aguardente de cana. Ali no alambique de Seu Antônio de Germino havia dois grandes tanques de caxixe bem na beira da pista. O cheiro que muitos detestavam era uma espécie de “seja bem vindo a Frei Paulo”. Na verdade eu gostava daquele cheiro e tinha o alambique como um dos meus locais preferidos para meus passeios. Mas evitava o trago da Ibiracema.
Ali era um ambiente diferente, a indústria emitia aromas maravilhosos, o cheiro da lenha aquecendo a caldeira e a própria arquitetura do lugar era bem interessante. No caminho passava pela casa de Zé das Cachorras, um sujeito curioso que morava ali pouco depois do corte, do outro lado ficava a fazenda de Seu Liro, outra figura folclórica de Frei Paulo, pai de Zé de Liro e de Jidenal que foi vereador de Aracaju. A fazenda de Liro muito vistosa.
No alambique via-se a movimentação constante dos empregados. Levando os insumos e destilando a cachaça. Primavam sobretudo, pelo cuidado do seu restilo e pelo tempo de estocagem. Havia uma enorme torre de destilação toda em inox, que tinha capacidade para processar 1500 litros por hora. Do lado um deposito com quatro enormes dornas, todas em legítimo carvalho com capacidade para armazenar 45 mil litros de cachaça cada uma. Antigamente a água encanada usada pela população vinha do alambique. Era uma água salobra, que só servia para tomar banho.
Fernando, um dos filhos de seu Antônio passava o dia transportando cabaú num caminhão pipa. A indústria tinha um deposito numa casa que ficava ao lado da Bodega de Salomão, onde armazenava milhares de litros da matéria prima. Sempre que o caminhão terminava de descarregar a meninada se aproximava e passava o dedo na saída para lamber o cabaú, ás vezes a gente comia ele com farinha. Não esqueço nunca o gosto. Era uma boa iguaria para se provar e os meninos de Frei Paulo da minha época pareciam viver em função de comida. Eramos um bando de famintos sempre procurando algo para comer.
Provei algumas vezes a cachaça, mas nunca fui chegado. Era muito forte. Às vezes eu pegava um pouco colocava no chão, riscava o fósforo e por alguns instantes ficava a contemplar a chama azul, resultante da combustão devido a grande quantidade de álcool que havia no produto. Quem ia ao alambique não saia sem ganhar um litro ou dois da cachaça, lembro bem do rótulo, era meio avermelhado e estampava a figura de uma índia muito bonita. A cidade tinha muitos cachaceiros e muitos se perderam por esse caminho tortuoso. O da manguaça.
Nos dias de feira víamos Pelego, Didí,Cidi, Barroca e outros empregados das fazendas, encherem a cara de aguardente e muitas vezes ficarem apagados nas calçadas. Eu achava Barroca o mais engraçado de todos os biriteiros, ainda lembro-me do seu jeito brincalhão e despretensioso, sabia como lidar com a molecada. Era zuado por todos, mas sua reação era só risada. Um sujeito de cuca fresca, sempre sorridente e de cara cheia. Ele era empregado da Fazenda de Batista Felix. Sua morte foi triste, aconteceu a caminho de sua casa, ele morreu afogado em uma poça d’água bem pequena, estava tão embriagado que não conseguiu evitar o pior. Lembro de Luis Alves fazendo seu caixão, era o mais pobrezinho que existia na sua funerária. No cortejo para o cemitério, só meia dúzia de gatos pingados acompanhava, cheguei a chorar quando vi aquela triste cena.
A cachaça de Frei Paulo foi símbolo de riqueza para uns e infortúnio para outros. Milhares de litros saiam diariamente para as cidades da Bahia. A fama da Ibiracema correu todo o Nordeste, mas por conta de desavenças familiares a indústria acabou fechando as portas. Secaram os tanques de caxixe e os empregados da Destilaria Imbira migraram para outras atividades. Mas uma coisa é certa: a cachaça de Frei Paulo fez história com a fabricação desse produto genuinamente brasileiro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

As aventuras de um ás da FAB


De fato, não era um sonho, eu ouvi o som daquele avião. Numa tarde como outra qualquer de minha infância. Se não fosse uma emergência dava para bater uma fotografia aérea. Naquele instante, lá estava plácida a cidade de Frei Paulo como jamais tornará a ser, dona de um tempo inesquecível de nossas vidas. A gostosa rotina entre o Educandário Imaculada Conceição e a humilde casa de platibanda no Beco do Talho. Eu estava exatamente ali na sala debruçado à mesa de fórmica, adquirida com tanto esforço por minha mãe. Estava sobre a mesa, um caderno de dever retangular, com sua capa azul e folhas de papel pautado, onde anotava-se o dever de casa passado por minha professora D. Iraci. irmã de outra mestra D. Inês, elas são filha de D. Caçula, mestra tarimbada reconhecida como grande educadora dos freipaulistanos. O dever era de geografia e ali eu tentava decorar a resposta a essa pergunta: O que é um Cabo? Cabo é uma faixa de terra que avança para o mar. No meio daquele mundo de descobertas, afinal a professora naquele tempo ensinava todas as matérias, menos aviação.
Tal qual no poema de Ferreira Gullar, o avião passou rasante sobre meu telhado, voando baixo. Naquele tempo eu já era apaixonado por aviões, as aeronaves exerciam em mim um grande fascínio, mas que só víamos nos filmes sobre a Segunda Guerra no Cine São Jorge na rua Getúlio Vargas, verdadeiro patrimônio cultural destruído e esquecido, que poucas gerações tiveram o privilégio de desfrutar. Foi ali que aprendi a gostar de voar.

Aquele era um avião de guerra, ele singrava os céus de Frei Paulo, voando baixo e dando aquele sinal de emergência. A cidade inteira ficou em polvorosa com tão inusitado fato. Era 03h30min da tarde, quando o piloto percebeu que estava fora da sua rota, então começou a sobrevoar Frei Paulo em círculo, hora descia em direção à Av. José da Cunha, hora à Praça da Feira. Naquele tempo as estradas eram de piçarra Logo deu pra perceber que se tratava de uma situação de emergência. A maioria das pessoas da cidade passaram a viver aquele momento como se assistia a uma cena de filme.
O tempo passava muito rápido e logo já era fim de tarde e o avião não parava de roncar sobre nossos tetos. Muitas mulheres foram para a igreja rezar, pedir pela vida do piloto. Esse avião ficou conhecido como "queima panela", a confusão foi tanta que as mulheres largaram seu afazeres domésticos para viver aquela aventura.
Já era noite quando o tenente aviador de nome Luis, tentou pousar na praça da feira. mas, como não havia espaço arremeteu.
Numa última e arriscada tentativa, desceu em uma rua de piçarra na saída da cidade, na estrada que vai para Itabaiana, depois da Praça da Feira. Passou entre dois postes, e ainda tocou uma das asas, mas conseguiu pousar incólume indo parar ali onde atualmente é o posto de gasolina. Quando a poeira baixou lá estava ele com seu nariz apontado para a Imbira.
Corri feito louco no meio da nuvem de poeira vermelha, queria ser o primeiro a chegar, quando me aproximei do avião, toquei nele, fiquei perplexo ao ver suas metralhadoras nas asas e o nome FAB na fuselagem. Em meio à poeira vermelha, desceu um rapaz alto, de olhos azuis. O seu nome era tenente Luis, não esqueço, vinha de Cipó da Bahia e teve problemas durante o vôo, uma pane de localização. Estava perdido. Foi um verdadeiro milagre, o avião teve que ser desmontado, pois não tinha como decolar naquela pista tão curta.
. Luizão foi quem indicou a pista com os faróis de seu carro, conseguiu sinalizar para o piloto realizar a aterrissagem forçada. Também outra cena cinematográfica foi quando uma linda jovem aproximou-se do piloto e disse: "um rapaz tão jovem quase perder a vida aqui neste sertão." As lágrimas rolaram do rosto do aviador. Essa linda jovem de feições nórdicas, era Marta de Ranulfo, a miss cenecista que deixou o piloto admirado com sua beleza. Por incrível que pareça, esta é uma história real. Gente vinda de outras cidades ficava surpresas ao se deparar com aquele avião, ali era rota dos caminhões pau de arara e eles estacionavam em fila e seus ocupantes não paravam de olhar o avião, era um movimento constante dia e noite. No dia seguinte, outro avião desceu em Frei Paulo,desta feita, um teco-teco, pousou no mesmo local com oficiais da Aeronáutica que vieram a Frei Paulo para realizar as investigações do acidente aéreo. Nunca se viu tanta movimentação e novidades. Nas conversas que adentravam a madrugada tecendo lhoas ao piloto e sua indiscutível habilidade. Dava-se as mais absurdas versões. Coisa do destino. E olhe que esse não é o primeiro avião que faz um pouso dessa natureza, o outro que sofreu uma pane nos anos 50 e pousou na Avenida José da Cunha foi quase todo destruído com golpes de foice por Rosendo de Catita causando um baita prejuízo.

O bacharel


Houve um tempo em Sergipe que os delegados das cidades eram sargentos ou tenentes da Polícia Militar. Eles tinham o ar de autoridade e ficavam nesses cargos apoiados geralmente pelos prefeitos. Em Frei Paulo também era assim. O cargo de delegado sempre impõe respeito e quem não andava na linha, já sabia ia ter que se entender com o delegado. E a missão de conduzir o meliante até a delegacia era do Praça Edson. Este nunca andou armado, e na hora de prender alguém agia como um verdadeiro diplomata fardado. “Você não vai ser preso, você vai apenas conversar com o delegado e vai comigo” dizia o praça ao intimado e com todo jeitinho, convencia o sujeito a ir à delegacia. “Vá na frente pra ninguém saber” Dele nunca se viu ou soube de um gesto de violência, pelo contrário, quando o sujeito tava preso ia lá na cela, levava um cigarrinho, dava conselho e intercedia em seu favor para livrá-lo dos rigores da lei.
Mas um dia esse clima bucólico de boa convivência da polícia com a comunidade foi quebrado pela chegada do Bacharel. Esse camarada foi o primeiro, formado em direito a exercer a função de delegado em Frei Paulo. A banda de música foi receber a autoridade e até mesmo os alunos do grupo escolar ficaram ao sol aguardando a oportunidade de dar as boas vindas ao ilustre Bacharel. Esse clima de cordialidade durou muito pouco, logo ele começou sua sanha de arbitrariedades na cidade. Seu nome era temido e soava como um terror para a população. Todos temiam ao Bacharel. Num bar ou em qualquer lugar que ele chegasse todos saiam de fininho.
O sujeito era um poço de arrogância, tinha os bracinhos meio que aleijados e com eles gostava de bater. era muito ousado e metido a valente, devidamente acompanhado por dois soldados. Sua fama de valente e acima da lei criava medo nos desordeiros. Por um bom período a cidade que já era calma ficou ainda mais pacata com os rigores ditados pelo temido bacharel. Ele era um cara muito boçal e adorava soltar piadinhas de mau gosto com quem com ele conversava. Achava-se o supra-sumo da inteligência. Brabo como sempre, desfilava com seu caminhado meio esquisito. mas cheio de empáfia.
Até que um belo dia, ou melhor, em uma bela noite, no Clube de Frei Paulo, quando a nata da sociedade estava reunida, o tal bacharel, vestido em camisa de seda, foi tirar satisfação com Ranulfo."O senhor está falando alto demais" disse o Bacharel. Ranulfo, um sujeito muito bacana e bem conceituado na cidade, era também muito forte, braços acostumados com a lida na sua fazenda e homem corajoso, decidido. Quando bebia umas duas dava ruidosas gargalhadas e falava alto. Pegou o tal bacharel pela abertura, e arremessou sobre as mesas, como que em desenho animado. Este depois de tão duro golpe, saiu de fininho, desmoralizado, até hoje não deu mais com seus costados em Frei Paulo. Depois dessa atitude, Ranulfo foi efusivamente cumprimentado em Frei Paulo, até mesmo pelo prefeito, ninguém agüentava mais o tal bacharel.

Arquétipos do inconsciente sertanejo


Quando a noite cai, cadeiras são colocadas na porta, em quase todas as ruas viam-se grupos reunidos e os contadores de estória entravam em cena. Eles conseguiam criar suspense contando estórias de trancoso, um antigo costume. Muitos eram exímios contadores de estória. As estórias eram de reis e também as artimanhas de Pedro Malazarte, faziam parte do repertório e não podiam faltar as de lobisomem, luzernas, mulas sem cabeça, visagens, essas eram narradas com se fosse uma verdade absoluta. Na hora de ir pra casa, o medo tomava conta dos ouvintes. Bem-te-vi que morava na avenida era um desses contadores de história. Como ele, haviam muitos. Ouviam-se essas histórias com muita atenção eram verdadeiros arquétipos do inconsciente sertanejo que causava influencia no comportamento.
Eu na verdade nunca me impressionei muito com essas estórias e preferia seguir para a papelaria Brotolândia e com alguns trocados no bolso gastar com figurinha, nunca fui de preencher um álbum, pois acabava perdendo tudo no jogo do barrufo. Ali na porta da prefeitura toda noite uma turma se reunia para apostar figurinha no barrufo. João Bolinha, Dudu, Celso de Zé Pequeno. Às vezes eu ia para casa com a mão ardendo e rouco de tanto gritar “barrufo” a palavra já estava tão gasta que falávamos apenas “rufo” para ter a vez de barrufar. João Bolinha tinha uma técnica apurada para virar centenas de figurinhas numa barrufada só. Aquilo era cruel.
Uma das coisas mais gostosas que me lembro era correr atrás do carro da figurinha e sair juntando envelopes e envelopes, aquilo era uma das melhores coisas das vida. Quando somos criança, a visão do mundo é bem diferente. Tomava guaraná. No dia que provei um pouco de cerveja eu cuspi e disse: que coisa horrível, e pensei comigo mesmo, como são estranhos esses adultos, gostam tanto do que não presta. Toda noite enquanto jogávamos via seu João Teles confortavelmente sentado na varanda de sua casa tomando uma fresca, ele era o prefeito e o pai de João Bolinha. Uma figurinha difícil era trocada por um bolo das mais fáceis. Eu sempre guardava as mais raras para tentar recuperar as perdidas no jogo.
No tempo de caju, o jogo era o nove no baralho, ali na porta da prefeitura apostávamos castanha, o banqueiro João Bolinha tinha um saco cheio delas e as partidas duravam até umas dez da noite quando Seu João Teles mandava o filho entrar. O jogo com castanha tinha também outras modalidades. Como por exemplo, o castelo, um jogo no qual atiramos castanhas numa outra castanha de preferência bem grande. Esta era chamada de castelo. Quem tocar no castelo leva todas que estão ao seu redor. Jogava muito ali mesmo no coreto e os parceiros eram sempre os mesmos Bento de Diógenes, Geraldo de Mané Bonzinho, Escorrego, Carneiro Brabo, Sérgio de Batista, Gilmar de Desinho o Neguinho de Zé Cutelo, entre tantos outros.
Enquanto muito se entretém com as estórias, outros buscavam diversão nas redondezas, como por exemplo, o concorrido Forró de Cadeco na estrada da “Grota Funda”, onde as danças e a cachaça farta varavam a madrugada. E aqueles ainda mais afoitos iam para a Jaqueira, a casa da luz vermelha que ficava na Ladeira na estrada que vai para o Tanque dos Cavalos. Quanto às estórias, esses arquétipos ficam guardados no Inconsciente coletivo até que algo os desperte e os faça ressurgir seja em prosas ou em versos ou na boca do povo.

domingo, 25 de março de 2012

Rotina de uma cidade pacata


A rotina em Frei Paulo de minha infância nunca foi massacrante, pelo contrario era muito interessante graças aos personagens incríveis que povoavam o pequeno e amado torrão. O carteiro Azael tinha um jeito interessante de andar, ele morava na praça da matriz, era pai de Virgílio, Joselito e Magali, andava por toda cidade, como se estivesse caminhando sobre um muro, e ao chegar às casas gritava: “Correio” Outro personagem interessante era Djalma, era muito bom ver esse homem conversar, era muito ilustrado e às vezes numa mesa no Bar de Dario ele reunia os amigos para divertidas conversas e piadas inteligentes. Djalma trabalhava no Fórum, mas sua maior habilidade ficava por conta dos discursos que fazia nos enterros. Enterro sem os discursos de Djalma não tinha a menor graça. Ele causava emoção e choro , ao logo dos anos desenvolveu essa habilidade de elogiar de forma desbragada a quem estava passando dessa pra uma melhor. Muita gente ia aos enterros só para ouvir Djalma falar. Ele também tinha várias filhas, eram moças muito bonitas, ele por sua vez era um pai zeloso e ciumento. Já o vi botando pra correr um rapaz de Itabaiana que estava namorando uma de suas filhas. Um jeep transitava vagarosamente pelas ruas e praças fazendo propagandas num alto-falante. era o ex-deputado Djalma Lobo que sempre estava nas ruas de Frei Paulo. Sua voz grave e inconfundível foi ouvida por muito tempo na rádio Princesa da Serra, no programa “Crepúsculo nordestino” líder de audiência na região.
Lili atravessava a praça e ao chegar à sua loja colocava uma preguiçosa na porta e passava o dia lendo jornal, Era o Jornal do Brasil, muito bem informado, mas não gostava de muita conversa. Sua loja vendia artigos interessantes, ferramentas para pedreiros, gaitas e realejos, presentes etc. Difícil ver alguém comprar alguma coisa lá, mas a loja era muito organizada. Sua esposa Teta era uma excelente costureira e as filhas lindas Liliane, Nanan e Desirrê.
Seu Desinho também trabalhava no Fórum Flavio da Rosa Melo, um homem culto que gostava de mostrar aos mais jovens seus conhecimentos literários. Abordava estudantes na praça para declamar textos poéticos de Augusto dos Anjos. Discorria sobre as obras de José de Alencar. Homem de linguajar rebuscado, mas também muito brincalhão. Ele é o pai de Gilberto, Cucuta e Gilmar, e também de Cassinha e Geovania.
De outro lado da praça, a loja de roupas de D. América, ali um papo agradável com Tonho Silveira, também chamado de Tonho Perneta, irmão de América, ao lado a farmácia de Faroaldo e a bodega de Quebra Santo. Este era sisudo e vestia-se sempre de preto. Ganhou esse nome porque na juventude era muito curioso e uma vez quebrou um caixote da igreja. Do mesmo lado ficava também a padaria de Dedé. De lá, em sextos aromáticos, saiam deliciosos pães italianos. Tibúcio um “vendião de pão” gritava em tom melódico pelas ruas. “Oi o pão italiano quentinho quem vai querer, tá quentinho” Seu Euclídes entrava para mais um expediente na exatoria, também ali na Praça Capitão João Tavares.
A bodega de Zé Correia era um ponto de encontro de vários amigos, ficava na esquina da travessa que vai dar na praça da matriz. Com uma conversa agradável e muita simpatia Zé Correia ao longo de sua existência conquistou muitas amizades, por ser um sujeito atencioso, sorridente. Já a farmácia de Paulinho era um local onde predominava conversas de cunho político, era um reduto de oposicionistas onde não faltavam críticas aos arenistas.
Antes de se tornar uma sorveteria era o Bar de Natan, vendia refresco de maracujá, mangaba e goiaba, bolos e sanduíches de mortadela, ali sempre na porta com um palito de fósforo passeando pela boca Tonho de Julieta, diariamente ficava ali, ele era deficiente por conta de um acidente que quase lhe tirou a vida. Foi enquanto viajava sobre uma marinete e se chocou com um fio de alta tensão. E a vida da cidade transcorria sempre num clima de paz e tranqüilidade, Era com esses e outros tantos personagens que a cidade de Frei Paulo ganhou a fama de cidade pacata.

sábado, 24 de março de 2012

Com vocês o palhaço Tibira


Havia muita diversão na cidade. Não demorava muito, mais um circo chegava para a alegria geral de nossa comunidade. Não eram circos grandes, os maiores que já vi em Frei Paulo, foram: o Silva, Gran Bartolo, Vostok, Geovanine, o Thyane eu assisti ainda menino, mas foi em Itabaiana. Quando o circo chegava os ânimos se elevavam. A Trupe percorria as ruas com seus penas-de-páu, malabaristas e rumbeiras, uma previa coloridíssima, sob o grito “Arrocha Negada” Os palhaços eram as atrações favoritas. Mas tem um circo que na minha infância marcou época foi o circo do palhaço Tibira. Lembro-me perfeitamente dele, do seu porte atlético e de sua versatilidade. Tibira era o próprio dono do circo, e vez por outra estava de volta, ele gostava tanto de Frei Paulo que não faltou nada para seu circo ficar definitivamente por lá. Fez amizades com o povo. Ele era uma espécie de faz de tudo, como palhaço é o melhor que já vi, o mais engraçado dos que já passaram por aqui, a voz de palhaço inconfundível, criativo, improvisava as piadas e envolvia a platéia nas suas brincadeiras. Era também trapezista e malabarista e ainda na segunda parte do espetáculo incorporava um ator.
Era um circo de médio porte, tinha uma boa empanada e barracas novas ao seu redor. Sonolentos mata cachorros. A equipe de artistas também era boa. Rumbeiras bonitas que atraia a atenção de muitos gaiatos. O apresentador era eloqüente e tinha um português aceitável. ”E com vocês, Adriana Silva em passes de rumba”. E lá vinha ela graciosa bailando com seu biquíni cheio de lantejoulas sob uma música de guitarradas em estilo caribenho que levava a galera ao delírio. Muitos nessa hora iam para bem perto do palco para ver bem de pertinho sua exuberante sensualidade, apesar da barriguinha um pouco acentuada. Quando ela levantava a perna era uma gritaria geral. Depois ela simulava que estava jogando sua perereca para a platéia, nessa hora muitos entravam em êxtase e a algazarra e gritaria era ouvida de longe por quem estava de fora do circo.
Mais um pouco, a grande atração da noite: “E com vocês o palhaço Tibira” eram aplausos e risadas para as presepadas desse impagável humorista. Ele usava um sapato comprido e se equilibrava na ponta do pé, nessa hora sua altura passava de dois metros. Era cheio de piadas e na platéia escolhia sempre alguém para envolver nas brincadeiras, todos riam muito quando vez por outra ele falava “Ai Ciço Bicho me morda” se referido a Cícero de Zezé de Dona Rosa. Tibira contava todas aquelas piadas manjadas de circo, mas com ele essas piadas mesmo que conhecidas tinham uma graça toda especial, ele era um palhaço de verdade.
O seu circo demorava meses armado em Frei Paulo, mas depois não voltou nunca mais. Uma notícia dava conta que ele havia morrido em uma apresentação de trapézio. Não esqueço que ele era um dos melhores que já vi, executando com muita precisão saltos mortais incríveis e sem rede de proteção. Ele morreu ao despencar do trapézio fazendo o salto duplo mortal, ao que tantas vezes assisti sob grande suspense, vendo a bateria repicar a caixa antes da arriscada manobra.
O circo ainda hoje ocupa lugar na memória dos freipaulistanos. Era uma grande opção de diversão para nosso povo que gostava das mágicas e também das peças teatrais apresentadas durante a parte final dos espetáculos como por exemplo "A Louca do Jardim", eram denominadas de “Drama”. Estórias comoventes que levavam muitos às lágrimas. Gente de todas as idades freqüentava os espetáculos, mas nenhum deixou tanta saudade como os do inesquecível palhaço Tibira.

sexta-feira, 23 de março de 2012

“Por que não deixam o homem terminar o seu eito”


Meu pai cultivava muitas amizades, e dentre os seus melhores amigos estava o ex-deputado estadual Napoleão Emídio, um caboclo sertanejo muito respeitado por essas bandas. Meu pai era apaixonado por pescaria e o amigo Napoleão em sua fazenda possuía os melhores tanques, cheios de peixe. Isso porque ninguém ousava roubar peixes de seus tanques, se o fizessem iriam comer capim pela raiz. Muitas vezes fui com meu pai pescar e o resultado era sempre o saco cheio de peixe. Traíras bonitas pescadas na linha de fundo preparadas à milanesa por minha mãe.
Sua casa ficava na praça da matriz, mas suas idas a Frei Paulo eram raras, vivia mais na fazenda que fica na estrada que vai para Carira. Às vezes, aos sábados, dia de feira ele chegava com seu motorista em sua Veraneio e saia pelas ruas a cumprimentar os amigos entre eles, João Teles, Zé Correia, Seu Bastos. Dr. Rubens, Zé Fradinho, Paulinho da Farmácia, Seu Hilarino, Justiniano, Fleorí, Seu Batista, Vado, Daniel Paixão, Avelino, Mané de Lunga, Paulo Costa entre outros. Era um mulato que pelo tipo físico e pela feição lembra Luis Gonzaga o Rei do Baião.
Um dia na sede de sua fazenda eu e meu pai tivemos a honra de conhecer sua coleção de armas. Um quarto na grande casa da Fazenda tinha nas suas paredes todo tipo de armas, que se pode imaginar. Uma coleção valiosíssima. Ele era calado, homem de poucas palavras, mas de ações enérgicas. Muito respeitado na cidade. Um dia, em outra visita a sua fazenda, foi atencioso comigo mandou me servir uma umbuzada que na minha vida nunca provei igual, era puro néctar da fruta, colhida na hora e preparada com muita mestria pela sua cozinheira.
No ano de 1955, no governo de Leandro Maciel, a política por aqui era regada a discussões acaloradas e também atitudes violentas, naquela conjuntura os políticos eram alvo de brigas e disputas mortais. Foi nesse contexto que Napoleão Emídio atuou na Assembléia Legislativa de Sergipe. Era um homem de posições firmes e decidido. Um exemplo claro disso é este depoimento do desembargador Artur Oscar de Oliveira Déda: “Conheci um deputado procedente de Frei Paulo que passei a admirar quando ouvi o relato de um gesto simples seu, mas que, para mim, revelador de elevação espiritual. Aconteceu depois da redemocratização do País. Contaram-me que estava na ordem do dia a cassação do mandato de Armando Domingues, eleito pelo Partido Comunista do Brasil, que fora posto na ilegalidade. Armando Domingues era um bravo parlamentar esquerdista, médico humanitário, orador fluente e, sobretudo, um homem de bem. O seu colega de Frei Paulo somente o repetia no último atributo mencionado. Sim. Napoleão Emídio era um caboclo sertanejo, trabalhador, honesto, sisudo, religioso, que não sabia fazer discurso, mas cuidava muito bem das suas fazendas e dos interesses do povo que representava. Tudo o levaria a considerar, sem o mínimo constrangimento, a saída do colega que rezava por cartilha tão diferente. Deu-se, porém, o contrário. Aconteceu a inesperada prática da solidariedade política, independentemente de facção. Houve o belo gesto! Naquele dia nefasto, o deputado que não falava, que não abria a boca para dizer coisa alguma, resolveu falar. E o fez da maneira como falam os sertanejos acostumados ao amanho da terra: “ – Por que não deixam o homem acabar o seu eito?!” Numa frase curta e simples, a revelação de um caráter íntegro. Depois que ouvi contar essa história singela, passei a considerar o deputado Napoleão Emídio como realmente merecedor da minha estima pessoal.”
Homens de comprovado tirocínio político, Napoleão Emídio, e Djenal Tavares Queiroz, são referência da excelência de caráter. de homens públicos sergipanos que alcançaram projeção, tendo como características indeléveis a honradez e dignidade. Orgulho para os filhos de Frei Paulo, para Sergipe e para o Brasil. Atributos cada vez mais raros entre os políticos da atualidade.

Louco por Roberto Carlos


Zé de Rola era um carpinteiro que morava na Chã do Jenipapo, logo ali depois do Tanque dos Cavalos bem em frente à Fazenda de Bado. Sua figura lembra o recruta zero, se traduzida para os quadrinhos. Magro e cuca fresca. Olhos verdes claros que transmitiu para sua prole. Era comum ver Zé de Rola de enchó na mão trepado nos telhados realizando reparos ou instalando cumeeiras nas casas em construção. Roupas simples era um homem cortez é o genitor de figuras folclóricas da vida freipaulistana, entre os quais figuram: Guedes, Madeirinha, Nicaço, Zé Feio e as suas irmãs que não lembro agora o nome.
Dentre os filhos de Zé de Rola o mais controvertido era Madeirinha. Um palhaço sem precisar pintar o rosto. Esse cara rodava por toda parte, a pé ou de bicicleta cantando músicas de Roberto Carlos. O cara era insistente e aonde chegava cantarolava o tempo inteiro essas músicas. O irmão mais velho, Guedes tem uma voz grave e bem entoada e também se auto intitula cantor. Qualquer festa na cidade lá está ele entoando boleros do tempo do cuspe com seu vozeirão. Já o irmão era louco por Roberto Carlos e bota louco nisso.
O Nicaço nunca abriu a boca pra cantar, sua figura apagada e introspectiva despertava compaixão. Tímido com seus trapinhos simples era uma figura apagada. Já o caçula Zé Feio é o único dos irmãos que parece normal. Trabalhava nas fazendas como vaqueiro, sendo um rapaz musculoso e de poucas palavras. Zé de Rola era amigo dos filhos e não interferia no estilo de vida de cada um. Madeirinha era o mais problemático e quando bebia perdia as estribeiras e aprontava confusões que acabavam em tapas e pontapés e às vezes em cadeia.
No outro dia lá estava ele pra cima e pra baixo, cantando: “Você meu amigo de fé meu irmão camarada” com as canções do rei curando as feridas dos atropelos. Era movido a paixões, dizem que cantava e quando se apaixonava por alguma moça passava o dia e a noite indo e voltando pela mesma rua que ela morava. Eu já presenciei isso por diversas vezes. Foi assim com uma moça da Serra Redonda que morava ali na Rua do Postinho. Ele enchia o saco cantando o dia inteiro indo e voltando tentando obsessivamente chamar sua atenção. Ela nunca soube desse amor secreto.
Ele trocava constantemente de paixão, pois quando a família da moça sabia de suas intenções, ou melhor, de suas más intenções, o procurava e davam-lhes um esculacho. Ele carregava um estigma por conta de seu comportamento que era o de um verdadeiro maluco. Ele fazia de tudo pra chamar a atenção. Houve um tempo que andava vestido com roupas de saco. Outras vezes andava em pernas de pau. Quando o tamanco virou moda ele mesmo fabricou um que era excessivamente alto. As laterais lembravam uma gaiola e dentro colocou dois ratos. Caminhava por todo canto com esse insólito calçado. Em outras ocasiões aparecia vestido de mulher.
Gostava muito de conversar e puxava papo com todo mundo, era tagarela e suas opiniões eram as mais estapafúrdias, abordava do padre ao prefeito sempre disposto a discorrer sobre assuntos impertinentes. Madeirinha era um estorvo para a cidade. Enquanto uns riam de suas presepadas, outros o ignoravam, já outros detestavam seu controvertido estilo de vida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Festa de São Paulo


A festa de São Paulo é a mais importante e mais bonita do calendário de eventos da minha terra natal. Logo cedo, acordamos com o pipocar de fogos, um foguetório que virou uma tradição. Às 5 horas da manhã já começa a festa com a União Lira Paulistana executando lindos dobrados pelas ruas da cidade. É uma festa cercada de muito louvor ao nosso padroeiro e atrai gente dos povoados e das cidades vizinhas. Na minha infância não perdia um só instante dessa linda festa, via logo cedo Seu Hilarino acendendo o foguetório e a nuvem de fumaça subir. Não demorava sob a neblina do raiar do dia, a banda surgia imponente com todos os seus componentes em traje de gala sob a regência de Seu Genésio. Um adorável maestro, de feições amáveis.
Passam por várias ruas, pelo Beco do Talho, pelo Beco do Pinico, pela Rua do Cinema, pela Avenida. No passado, a festa começava na igreja e terminava do lado de fora, onde havia de tudo, carrossel, trivoli, bancas que vendia “arroz com galinha” muito apreciado. Essa parte da festa era chamada de “Profano”. Ali havia barracas enfeitadas de fita, jogos de roleta, prendas e tudo mais. Mas isso não é do meu tempo.
Observava a movimentação constante de visitantes que chegava de todos os lados, gente que não se via há muito tempo aparecia na Festa de São Paulo, oportunidade de renovar a fé e acompanhar a procissão. Até Maneiro o pipoqueiro que se mudou para Itabaiana, reaparecia com sua centenária fobica, cuja partida era acionada através de uma manivela. Outro carro, com serviço de alto falante circulava rua acima, rua abaixo, tocando o hino de nosso padroeiro “Oh! São Paulo a cidade a seus pés” era emocionante.
Lá pelo início da tarde em frente à linda casa de D. Raquel, seu Maroto, vestido em calça de linho branco e indefectível camisa “volta ao mundo” que não amarrotava nem precisava passar, observava do seu íntimo regalo, um grupo de senhoras integrantes dos ministérios, às voltas com lindas tulipas, dando os últimos retoques no carro andor, caprichosamente ornamentado. “Que lindo” pronunciavam extasiadas, as religiosas senhoras, ao ver concluído o trabalho que levou horas e horas. Chico de Bastião exaurido de tanto repicar os sinos.
A praça da matriz a essa altura, já lembra um formigueiro, gente por toda parte. E o padre João Lima Feitosa, vermelho de tanto bradar ao microfone do serviço de som da igreja: “Viva São Paulo”, ”Viva São Paulo” dava pra se ouvir de qualquer ponto da cidade. Só parava para se juntar ao bispo, e aos outros padres para conduzir a procissão. As velhinhas de pés descalços caminham enfileiradas num lento compasso, formando filas. Um grupo denso reúne as autoridades, governador, deputados, prefeitos. Assim a procissão segue pelas ruas acompanhando a imagem do Senhor São Paulo. Povo de muita fé. rezando e cantando hinos no trajeto.
Depois voltam para a Igreja onde uma linda missa campal é concelebrada, a matriz repleta de fieis a render honra e gloria ao apóstolo que foi o maior difusor do evangelho de Jesus Cristo. Ali sua história e seus ensinamentos são detalhadamente relembrados. É uma grande festa religiosa que tem tradição, bonita de se ver e viver. O encerramento é feito com outro grande show pirotécnico, desta feita já à noitinha, os mais velhos retornam contritos enquanto os jovens, em euforia se preparam para uma noitada promissora.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ouro de Tolo


Na década de 70 um grande parque armado na Praça da Feira tocava a música “Ouro de Tolo” de Raul Seixas, e ali do lado, no Bar de Dadá, via-se os viajantes comendo um lanche na costumeira parada dos caminhões pau de arara que viajavam com destino a Carira, Paulo Afonso. Outros no sentido contrário para Itabaiana, Ribeirópolis e Aracaju. Eram na maioria feirantes, os empoeirados viajantes. Eles adentravam o recinto e ali no balcão provavam o delicioso refresco de maracujá do mato e aquele bolo de leite quentinho, delicioso, cuja parte de cima tem a consistência de um pudim. Enquanto isso os motoristas abasteciam seus possantes no Posto de Zé Onofre. Às vezes um pneu furado. Chega, leva pra Borracharia de Zé Aldino.
O conserto de pneu rendia a ele um bom dinheirinho, o suficiente para levar uma vida, simples ao lado da mulher e do filho Ricardo, que naquela época, era um bebê. A sua esposa muito dedicada, cuidava da casa com muita resignação dado a pobreza. Levavam uma vida de simplicidade, mas Zé Aldino sempre sonhava com uma vida abastada, por isso parte de sua renda na borracharia ele gastava apostando na Loteria Esportiva. Era comum vê-lo circular pela cidade, sempre sujo de graxa e estressado pelo trabalho pesado da borracharia.
Um dia, porém, da noite para o dia, se tornou um homem rico. Não que tenha acertado os treze pontos da loteca, não. Mas porque era herdeiro de uma grande fortuna deixada pelo pai, um dos maiores fazendeiros da região. Com a morte do pai colocou a mão numa grande fortuna dividida com a irmã Valdice. A primeira coisa que fez foi fechar a borracharia. A mulher ele abandonou e os amigos que o cumprimentavam ele fingia que não lembrava quem era. Tornou-se um sujeito, pernóstico, arrogante e boçal, um antipático que arrotava grandeza.
A mudança começou pelo seu visual, comprou um jeep novo, calça de marca, sapato cavalo de aço, camisa de primeira, bem engomada e um chapéu de fazendeiro adornava sua cabeça. Quantas vezes, quando era pobre, chegou para os amigos e com vontade de fumar dizia: “me dê aí a bia” E matava sua vontade fumando cigarro babado pelos outros. Foram muitas vezes também que ele andando pelas ruas de Frei Paulo, logo que enriqueceu, deixava cair o março de Continental e seguia em frente, não se abaixava para pegar do chão. Achava-se um nobre. A sua vida de rico até que durou algum tempo, no máximo uns dois anos.
Ele dizia que estava indo embora, “esta é uma cidade de pobre”. Dizia. Então se mudou para Itabaiana, onde por algum tempo foi o rei dos cabarés, contam que ele mandava fechar os prostíbulos, expulsando todos os homens e gastava muito dinheiro na noite, sendo por demais generoso com as putas. Bebia e fumava cigarro das melhores marcas. Não queria nem ouvir falar em trabalho. Com esse estilo de vida não demorou muito para lhe sobrevir a ruína. Pouco tempo depois, ao contrário da Irma Valdice, que soube conservar a herança, Zé Aldino estava pobre, maltrapilho, perambulando pelas ruas de Frei Paulo sem eira nem beira, quando reencontrava os velhos amigos, com sua a cara bem cínica dizia: “me dê a bia aí”. Muitos passaram a ignorar sua presença, a verdade é que depois disso ele nunca mais se acertou na vida.

Uma trágica surpresa


A cidade de Frei Paulo sempre manteve uma intrínseca relação com as máquinas. Carro por lá sempre foi símbolo de status e poder. Muitos por conta disso fizeram fama como, por exemplo, Antônio Dantas Nunes, o Tonho de Batista, ele era um exímio ás do volante. Seu trabalho era transportar leite para Aracaju, produzido nas fazendas do seu pai, o próspero pecuarista Batista Félix, considerado naquela época o homem mais rico de Frei Paulo. Muito trabalhador e atencioso com seus pais e os amigos, Tonho logo conquistou a confiança de todos e com isso uma boa situação financeira. Por isso satisfazia os seu mais exigentes e extravagantes sonhos de consumo, que eram os carros e as motos. Ele abusava de velocidade e sua fama foi crescendo. “tirou em cinco minutos daqui pra Itabaiana”. Ele trafegava por aquelas estradas empiçarradas e esburacadas em altíssima velocidade. Tonho era um modelo perfeito de play boy do sertão.
Em 1970 ele passeava pela cidade com o mais top de todos os carros, um Opala SS vermelho, personalizado. Quando ele passava devagar, passeando altivo pelas ruas, arrancava suspiros das moças da cidade, despertando paixões. Usava um elegante e bem cuidado bigode, era um cara sorridente que se dava com todo mundo, muito amigueiro e brincalhão. Um dia ao sair da Papelaria, a do Mané de Casaca Preta, fui atropelado por ele e por pouco não tive o crânio esfacelado. Ao cair vi o pneu de caminhão travado pela frenagem parando a poucos centímetros de minha cabeça. Por pouco não morri. O caminhão era um antigo Ford Amarelo, o Carro do Leite que transportava também os alunos para Quissamã, onde ficava o Colégio Agrícola Colégio Agricola Benjamin Constant.
Houve um tempo que as motos entraram em moda, enquanto muitos se exibiam com suas motos de 50 e 100 cc, Tonho passou a desfilar na cidade com uma Suzuki, de 380 cc, uma moto grande potente e que custava muito caro. Somente os ricos podiam possuir a tal moto. Tonho era freqüentemente advertido por amigos e pelo pai para não abusar da velocidade com essa moto. Mas ele não dava a menor importância para os conselhos, e confiava muito na sua comprovada habilidade para dirigir em alta velocidade. Apesar de fazer isso com freqüência nunca tinha sofrido nenhum acidente grave.
Um dia, no ano de 1973, ele pegou a estrada em direção a Carira e ali, logo depois da entrada de Alagadiço, na curva onde ficava a fazenda do próprio pai, aconteceu o que todos temiam: um gravíssimo acidente. Luizão ia passando com seu Maverik e viu Tonho ensangüentado coberto de poeira na margem da estrada de piçarra. O quadro era de extrema gravidade. Levado para o hospital de Frei Paulo, ficou aos cuidados do Dr. Jairo. Uma multidão se aglomerou diante do hospital, aguardando notícias sobre seu estado de saúde. Às 5 horas da tarde, veio a notícia de sua trágica morte, causando uma comoção jamais vista entre os freipaulistanos. Ele morreu aos 27 anos de idade, o que motivou uma lacuna muito difícil de ser superada entre os tantos amigos de sua geração.

terça-feira, 20 de março de 2012

Um grande amigo


Ele é um bom exemplo de que as boas amizades são para toda a vida. Sérgio Santos era o meu melhor amigo de infância em Frei Paulo. Parece que foi ontem, caminhávamos fagueiros pelas veredas tortuosas que nos conduzia ao açude de Zezé de Dona Rosa, onde campos vastos se descortinavam sob o cheiro de curral e revoada de vira-bostas, entre arvoredos típicos da caatinga. Pé ante pé, na tentativa de capturar cigarras. Na quaresma o canto desses grandes insetos exercia sobre nós um fascínio. A paisagem lembra filmes medievais e ao cair da tarde, no crepúsculo, elas ficavam mais fáceis de serem capturadas. Preocupando-se tão somente em cantar. Às vezes, achávamos algumas mortas, agarradas ao caule avermelhado dos arranhentos, pipocadas pelas costas de tanto cantar na jurema.
Gostava da companhia de Sérgio de Zé Pequeno porque ele era um cara sensível e romântico, gostava de vê-lo discorrer sobre suas paixões, sempre amores platônicos que ele num caderno os exortava em prosa e versos. Sua caligrafia irrepreensível e imaginação fértil, o faz cunhar neologismos e nos encantar com um poema novo a cada instante. Ele não teve o privilégio de estudar no Educandário como os demais, ele estudava no Grupo Martinho Garcez, sua sede de saber extrapolava. Sempre muito curioso e inteligente, tímido, dava show de conhecimentos gerais.
Um rapaz de ótimo caráter, honesto e amigo no qual se poderia confiar para qualquer confidência, principalmente quando o assunto era namoro ou uma paixão secreta. Parece que só tinha olhos para enxergar o lado bom das pessoas. Mas tinha também o seu lado obscuro, quando alguém pisava nos seus calos, não contava conversa, partia pra cima e baixava porrada. Assim eram todos os filhos de Zé Pequeno, afinal foram instruídos para isso, o velho sempre os orientou a nunca levar desaforo pra casa. Sérgio era um entusiasta das boas idéias, participante ativo do grupo jovem.
Foi junto com ele que comecei a escrever no jornal “O Ajo”, veiculo de comunicação mimeografado que era um sucesso na cidade nos anos 70, o jornal era impresso na casa das freiras ali na Av. José da Cunha. Escrevíamos de tudo, poemas, crônicas, notícias e até as fofocas que davam o maior ibope ao jornal. Mas a nossa postura crítica pedia algo mais. Por coincidência nos mudamos para Aracaju quase no mesmo ano, em 1977, por aí, e fomos estudar no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, onde nossa visão se ampliou.
Passamos a integrar o movimento secundarista, viajamos juntos para o Rio de Janeiro em 1982 quando participamos da SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Uma experiência gratificante que abriu novos horizontes para nossas vidas. Eu e Sérgio lançamos um jornal em Frei Paulo “Aranha da Comunicação” no qual passávamos uma vanguardista visão crítica na política local. As perseguições por conta disso foram implacáveis pelos poderosos da época, de maneira que só publicamos quatro números desse jornal, vivíamos a época da transição da ditadura militar para a democracia.
Há poucos dias o encontrei e como sempre é um prazer rememorar nossas aventuras intelectuais, nossa velha amizade continua viva, apesar do destino que insiste em nos levar por caminhos opostos. Uma das coisas que nos une e exerce sobre nós um nobre fascínio é o incondicional amor a nossa terra natal, nossa querida e amada Frei Paulo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Vida cultural de Frei Paulo II




Eu era um menino de 11 anos , quando o Grupo Teatral de Frei Paulo encenou a peça “O Santo e a Porca” de Ariano Suassuna, a comédia encantou nosso povo. Eu sempre tive vontade de participar do grupo, mas a minha vocação era musical, então pedi a Unaldo Sena, o diretor para cantar uma música na abertura. Então ele colocou um violão à minha disposição e encarei o desafio me apresentando para a platéia que lotava a área coberta do Educandário, toda sociedade freipaulistana estava presente. Confesso que deu um frio na espinha de ver tantas caras e pares de ouvidos escutando a minha voz, naquele tempo uma estridente voz de menino. Mas entre mortos e ferido a apresentação levantou aplausos da platéia. Lembro que cantei “ Felicidade” de Caetano Veloso:
Felicidade foi se embora
G/F Em
E a saudade no meu peito ainda mora
Am Dm
E é por isso que eu gosto lá de fora
G C
Porque sei que a falsidade não vigora


C F
A minha casa fica lá de traz do mundo
G C
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
C F
O pensamento parece uma coisa à toa
G C
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar

A letra e música combinam perfeitamente com o saudosismo que trazemos no peito, a saudade de um passado que nos remete a boas lembranças. Dos amigos inesquecíveis e das experiências vividas em nossa cidade natal. Nesse dia após me apresentar fui para a platéia, e ao lado do meu pai, dei muitas gargalhadas com a magistral interpretação dos atores freipaulistanos. Era um clima tão agradável que a palavra felicidade por destino ou coincidência era o que eu vivia naqueles momentos inesquecíveis. Um tempo que certamente está na mente de muitos conterrâneos que tiveram o privilégio de ser contemporâneo, de um tempo de efervescência cultural e de muita vontade de viver. Depois cada um tomou seu rumo e escreveram sua própria história, algumas belas outras tristes. Alguns comédia outros drama. É Assim é a vida.

No começo tudo era mata e índios


No começo era tudo mata e os índios habitavam essa região. Eram as matas de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Aqui viviam os índios Ibiracemas, na Chã da Imbira, nas margens do Rio Imbira. Era interesse dos portugueses colonizar essas terras para conter a invasão de holandeses e franceses. Por isso o rei de Portugal, passou a doar glebas dessa terra para o plantio de algodão e a criação de gado. El Rey dava a quem quisesse essas terras da Chã do Jenipapo, Gruta Funda, Chã da Imbira para impedir o contrabando de pau brasil e expulsar os índios da região. Contava minha avó D. Mizinha que sua tia Belinha narrava as histórias contadas por seus antepassados que dão conta que o alferes José Alves e Brás Vieira Matos eram os donos dessas terras.
O alferes se instalou com sua família perto de uma fonte de nome Olhos D’ água das Bestas, por que era ali que os animais bebiam, depois ganhou o nome de “Tanque de Beber” Mais tarde construíram o Tanque dos Cavalos. Isso remota ao ano de l840. Segundo Belinha, seu avô José Alves era um homem religioso, foi ele quem trouxe de Itabaiana os missionários capuchinhos, Frei Paulo Casa-nova e Frei Davi. Em 1860 eles chegam à região e numa santa missão realizam casamentos e batizados nas propriedades além de pregarem o evangelho.
Em janeiro de 1868, voltam dispostos a construir no planalto da Chã do Jenipapo, uma capela. Acompanhados de outros agricultores sobem por uma vereda até chegarem ao planalto, no meio de roças de milho e mandioca. Então pronunciou o frei: "Belo e gracioso lugar para se construir uma igreja onde Deus seja louvado e conceda muitas graças a seus adoradores.” E assim o fizeram, ergueram a capela em taipa com cobertura de palha no terreno doado por José Alves. Então Frei Paulo dedicou a capela ao apostolo São Paulo. Em 25 de janeiro daquele ano, a benzeu, e com o passar do tempo, a Chã do Jenipapo passou a se chamar São Paulo.
O frade cheio de entusiasmo profetizou: “Vereis ao derredor desta Casa Sagrada, muitas casas, morada dos adoradores do senhor onipotente” Gente da Serra Preta, Alagadiço, Flechas, acostumaram a subir a colina para participar da Festa de São Paulo. José Alves fez uma estrada de sua casa até a capela, conhecida como “Ladeira” Logo os moradores começaram a habitar o local, Chico de Janjão, meu bisavô, construiu sua casa do lado direito da capela. As casas eram feitas de abobe, um tijolo feito de barro cru. Aqui tinha duas olarias para a produção desse material. Uma delas misturava o barro com palha para torná-lo mais forte.
Em 1879 Frei Paulo Casa-nova e Frei Davi trouxeram um presente, ao vir benzer a nova igreja, construída com muita devoção pelos moradores, eles em procissão subiam a ladeira cantando e transportando os tijolos. Naquele ano, o frade trouxe de Portugal uma imagem de São Paulo. A imagem desembarcou em São Salvador da Bahia. Do Convento da Piedade veio de navio para Aracaju e de saveiro até Laranjeiras, e depois, em carro de boi até São Paulo. Foi uma grande demonstração de fervor religioso de nosso povo, gente dos povoados vieram assistir ao ato, gente humilde da Serra Redonda, Serra das Campinas, Serra Preta, Alagadiço, Mocambo, Coité, Gruta Funda, Molumgú, Piabas, Jibóia, Imbira, Lagoa Nova, Catuabo, etc. A festa foi linda e animada pela banda de pífanos do Sr. Antônio Goes, avô de Germino Goes.

domingo, 18 de março de 2012

Os embalos da Boate Spring Flowers


Na década de 70 a cidade fervilhava, a juventude aproveitava os finais de semana para se esbaldar naquilo que chamam hoje de “balada”, essa palavra que define os divertidos programas do sábado á noite. Na sexta feira já começavam a chegar os rapazes e moças de Frei Paulo que estudavam no internato do Colégio Agrícola Colégio Agricola Benjamin Constant, uma vez que a cidade na época só dispunha do curso ginasial que era uma escola da CNEC, o extinto Ginásio Cônego José Antônio Leal Madeira, onde também estudei. Naquela época, quem quisesse continuar os estudos, ou ia para o Colégio Agrícola, opção da grande maioria, ou estudava no Murilo Braga em Itabaiana.
A alegria era geral e o reencontro com amigos criava um clima muito gostoso. Às sete da noite os rapazes e moças já se exibiam na Praça do Correto e circulavam com suas melhores roupas bem ao estilo da época. Camisas caxarrel, calças boca de sino e sapatos cavalo de aço. As meninas se enfiavam em mine saias que era a coqueluche da época, mas poucas moças podiam usar, como todos sabem, Frei Paulo é uma cidade onde sempre transbordou o fervor religioso, e com ele, hábitos conservadores ditados pelos país. A turma marcava presença no bar “O Cajuzinho” que pertencia a Dedé da Padaria.
Eram namoros , paqueras, e aqueles que possuíam carros ou motocicletas, ficavam dando voltas e mais voltas pela cidade com suas máquinas brilhando, era uma movimentação intensa. Naquele tempo a televisão já existia, mas contava-se a dedo quem as possuía. Então a opção era a praça. Os mais idosos colocavam cadeiras nas portas e ficavam até tarde observando o vai e vem dos adolescentes. Também das cidades vizinhas chegavam rapazes disputando território, mas eram logo escorraçados pelos pais que não queriam ver suas filhas namorando forasteiros.
O destino final era a Boate Spring Flowers, que ficava na Praça João Teles da Costa, no interior do Grêmio Sesquicentenário. Ganhou esse nome porque na época era chique batizar qualquer coisa com nome estrangeiro. Ali se dançava discotheque até altas horas, regado a montila com coca ou whisky Old Eigtht. No meio do salão, sob a luz negra que dava um lindo efeito, viam-se rostos de lindas garotas bailando no salão em grupos e no meio das danças agitadas, o ritmo frenético era quebrado pelas músicas internacionais lentas. Ai os rapazes saiam como verdadeiros pedintes circulando no salão chamando as moças para dançar e colecionando “foras”.
Mas logo os embalos voltavam e aí se observava matutos desengonçados, sapateando no salão, esses já cheios de cana dançavam sozinhos como pobres diabos, fadados ao desprezo, mas mesmo assim todos os sábados estavam lá para se divertir. Frei Paulo sempre teve fama de ser uma cidade de mulheres bonitas, isso atraia muitos visitantes, mas pouquíssimos conseguiam engatar um namoro. Era um tempo muito bom de pessoas puras que queriam simplesmente se divertir.

Vida cultural de Frei Paulo


Nos anos 70, uma plêiade de jovens artistas, entusiastas da cultura popular, encantava as platéias com suas maravilhosas apresentações. Frei Paulo era naquela época umas das poucas cidades do interior sergipano a possuir vida cultural. A sociedade freipauistana com orgulho apoiava e não perdia um espetáculo, todos davam casa cheia, e era comum ver homens e mulheres chorando emocionados ou soltando estrondosas gargalhadas com as estórias ali tão bem representadas pelos talentosos atores. Nesta foto a representação da peça "O pai humilhado" de Paul Claudel que aconteceu nos dias 3 e 4 de novembro de 1973, no Cine São Jorge.
Eram dias e dias de exaustivos ensaios, até as belas apresentações para o público, esses ensaios eram no palco do Educandário Imaculada Conceição, mas as apresentações eram no cinema da cidade que contava com um grande auditório e palco. Caprichavam em tudo, no cenário e no figurino e principalmente na interpretação de cada personagem. Era tudo impecável. Ao término das representações, aplausos em pé para toda a equipe, comandada por Unaldo Sena, que fazia com muita competência a direção dos espetáculos.
Meu irmão Carlos Alberto Andrade Bastos era sempre o ator principal, sua atuação era simplesmente espetacular, mesmo antes de iniciar a peça havia algumas atrações preliminares e ele também participava , tem uma que não dá para esquecer. Sua interpretação superaria muitos atores globais. Estou falando de quando declamava com inusitada inspiração o belíssimo poema “Marília de Dirceu” de Tomaz Antônio Gonzaga:
“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!”
Emoções choro, contentamento e muitos aplausos de uma platéia embevecida com a virtuosidade dos filhos da terra, orgulho que era expresso em longos aplausos e emoções. Foram muitas e muitas apresentações e o grupo passou também a se apresentar nas cidades vizinhas, em Carira, Ribeirópoles, Itabaiana... Aonde o grupo teatral de Frei Paulo chegava, era recebido com o mesmo entusiasmo. A equipe possuía nomes de peso entre seus integrantes destacamos a sanfoneira Geonice, esposa de Pedro de Elpídio que fazia a sonoplastia com muita competência e originalidade.
Entre as peças apresentadas pelo grupo destacamos “O Santo e a Porca” de Ariano Suassuna , uma comédia muito boa que levava alegria e entretenimento aos freipaulistanos. A peça É uma comédia em três atos. Aproxima-se da literatura de cordel e dos folguedos populares do Nordeste. Na trama, Suassuna narra a história de um velho avarento conhecido por Euricão Árabe. Ele é devoto de Santo Antônio e esconde em sua casa uma porca cheia de dinheiro. Muito divertida, a história mistura o religioso e o profano.
Outros trabalhos foram montados pelo grupo, obtendo sucesso, entre os atores destacamos Luis de Donozor, Edvaldo Matos, Melquíria, Jujú, Zazá, minha irmã Heleuza entre muitos outros. Foi um tempo de intensa satisfação para todos, tempo que infelizmente não volta mais.

sábado, 17 de março de 2012

A temerosa invasão de Lampião


Ao saber da morte do seu mais respeitado cangaceiro, Zé Baiano, morto em emboscada ardilosamente planejada pelo coiteiro Antônio de Chiquinho, na Lagoa Nova em Alagadiço. Tendo o corpo do cangaceiro sido jogado em um formigueiro, o seu líder, Virgulino Ferreira da Silva, reuniu seu bando e partiu com destino a Frei Paulo para por em prática um sórdido plano de vingança. Ele planejara uma sangrenta invasão de nossa cidade. Isso ocorreu nos anos 30, durante a famosa seca que assolou o sertão sergipano. Além das aflições causadas pela longa estiagem, a população vivia apreensiva com a eminência desse ataque. O interventor federal Eronildes Ferreira de Carvalho, proprietários da Fazenda Jaramatáia, determinou a criação de uma “Força Volante” que permaneceu acampada por meses na antiga praça do mercado, atualmente Praça Capitão João Tavares. O grupo dormia em dezenas de redes armadas e os mantimentos eram cozinhados em panelões.
O povo de Frei Paulo ainda hoje acredita que foi a espada do padroeiro São Paulo que impediu a entrada do bando de Lampião. Segundo uma lenda contada em prosa e versos pelos mais antigos, toda vez que o cangaceiro tentava entrar em Frei Paulo, era acometido de uma terrível dor nos olhos e nos ouvidos e uma caganeira que o deixava muito debilitado. O Padre Madeira mandou virar para cima a espada da imagem de São Paulo, que era voltada para baixo. Foram tempos difíceis e o medo imperava.
Meu pai relata que viu Lampião e seu bando na feira de Ribeirópolis no anos de 1927, como ele era uma criança, passou por baixo das pernas dos adultos que se aglomeravam para ver de perto o rei do cangaço, imponente, com suas indumentárias, olhar de mau, taciturno e sério. Armado de punhais, parabelo nos quartos, ostensivas cartucheiras em forma de xis e em uma das mãos um rifle papo amarelo. Era a lenda viva dos sertões bem ali na sua frente, cercado de outros cangaceiros e sua mulher Maria Bonita.
Mas em Frei Paulo ele jamais pisou os pés, graça a bravura de seus habitantes que voluntariamente se juntavam à "Força Volante" para enfrentar os cangaceiros. Logo os rumores de atrocidades praticadas pelo bandoleiro começaram a chegar. Ele já teria invadido fazendas em Carira, Cipó de Leite e Mocambo, sua chegada a Frei Paulo seria uma questão de tempo. Lampião mandou um bilhete para o intendente Maurício Ettinger com o seguinte teor: “Quando menos isperá nois invade sua cidade; num vai iscapá nem menino de 9 mês, a cabeça do delegado Germino vai rolar”
Germino Góes era o pai de Antônio de Germino, dono do Alambique da Imbira, que fabricava a Ibiracema, a melhor cachaça da região. Ele teve que fugir para o sul da Bahia para não ser morto, pois sua fazenda fora diversas vezes saqueada pelos bandos de Lampião e Zé Baiano. Fez isso porque se recusava a ser coiteiro de Lampião. O seu neto, Germino Neto é casado com minha irmã Selma. A morte de Zé Baiano, planejada por Antônio de Chiquinho não trouxe paz, pelo contrario, deu início a uma guerra que por pouco não se consumou.
Lampião e seu bando ainda ficaram alguns dias acampados às portas de Frei Paulo, o local onde ele se preparava para a invasão era ali, onde fica hoje o Curral do Açougue, no pé da ladeira que dá acesso à cidade. Felizmente o bandido bateu em retirada, ao saber que teria uma resistência à altura. Rumou para a Bahia e tempos depois foi morto numa troca de tiros com a volante na gruta de Angicos, próximo de Propriá.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Educandário Imaculada Conceição


Foi o padre João Lima quem fundou o Educandário Imaculada Conceição. Lá eu entrei para estudar no infantil, onde ao lado de outras crianças passava o dia pintando o sete, como se dizia para definir as traquinagens de criança. Era uma escola particular onde os mais abastados estudavam. Minha mãe fazia um grande esforço para proporcionar uma educação de qualidade. Os coleguinhas que não tinham condições estudavam no Grupo Escolar Martinho Garcez. Lá no Educandário permaneci por vários anos até concluir o primário. Era uma escola que exigia muito dos alunos, tendo os melhores professores que por sinal eram quase todos de uma mesma família. A matriarca dessa família devotada à educação era D. Caçula.
E suas filhas D. Iraci e D. Inês eram mestras tarimbadas e experientes, integrantes do quadro de professores. D. Inês ensinava matemática no Ginásio Cônego José Antônio Leal Madeira, era muito rígida e fazia questão de tornar seus alunos bem aplicados. D. Caçula é um exemplo de mestra, dura, correta. Quando seus ensinamentos não eram assimilados aplicava um cascudo que era sua marca registrada. Quando acertava a cabeça ela arrastava a mão pelo couro cabeludo, causando uma terrível dor. Naquela época, era comum as professoras baterem nos alunos por indisciplina, ou até mesmo por burrice. Os próprios pais recomendavam essa prática, dando carta branca aos mestres para aplicar esse e outros castigos.
Já tomei centenas de cascudos de D. Caçula, e nunca conseguir ter raiva dela por isso, às vezes até gostava e ria olhando para a turma. Só não gostava quando ela bradava enraivecida com seus discursos e me incluía num bando de alunos que não acompanhavam o desenvolvimento da turma que ela carinhosamente os denominava de “resto de feira” Era uma metodologia educacional bem diferente dos moldes atuais, onde os alunos não querem mais respeitar a autoridade do professor. A mestra olhava a nossa mão e se as unhas estivessem sujas ela dizia: “unha de cavador de sepultura”
A escola possuía uma ótima biblioteca, não sei por qual motivo, foi isolada e não tínhamos acesso, a não ser, pulando o tapume colocado para esconder aquele tesouro, livros ótimos lidos às escuras. No corredor que dá acesso a biblioteca, um esqueleto humano em uma caixa de vidro nos observava nas idas e vindas à sala de aula. Aprendemos a amar a pátria e as datas comemorativas como 7 de setembro, dia da bandeira, proclamação da república, eram marcadas por homenagens em jograis e encenações teatrais.
Não me esqueço do primeiro ano, quando a professora era D. Iraci, mãe da colega Marta, irmã de Lucrécio, Maria, Cristovão e Melquíria. Era a única que não batia nos alunos e suas aulas eram muito bem assimiladas, principalmente quando o assunto era religião. A escola paroquial nos municiava de informações privilegiadas do evangelho. Ensinava a rezar, a respeitar os mais velhos e a levar uma vida de santidade. Ouvia-se aquilo com muita atenção, mas assim que a sirene tocava o capeta fazia a festa no recreio.
O Educandário possui uma área muito boa, um grande salão coberto com um palco e uma quadra de futsal. O educandário era local de brincadeiras memoráveis e atividades lúdicas, teatro, música, enfim tudo que uma criança precisa para ser feliz entre suas árvores frondosas. Ainda escuto,nos recônditos da memória, a barulheira da criançada no recreio, brincadeiras de roda, de esconde esconde e a sagrada hora da merenda que trazíamos de casa, e às vezes comia-se às escondidas quando o lanche era um pedaço de cuscuz.
A vida de D. Caçula era o educandário, ela era professora do quarto ano e também diretora da escola, rígida,atenta, mas no fundo uma ótima pessoa. Centenas de homens de bem, passaram pelas suas mãos zelosas e não se esquecem de reconhecer a grande mestra que ela foi. Mesmo no recreio D. Caçula, séria e compenetrada, com seus óculos pretos, olhava para todos os lados como um caleidoscópio, a procurar de baderneiros para aplicar seus desconcertantes cascudos, que até hoje me fazem falta.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um padre sem papa na língua


Padre Madeira foi o primeiro vigário que morou em Frei Paulo, não era um homem de meias palavras. Cumpria suas desobrigas religiosas com amor e extrema responsabilidade. Sofreu perseguições por conta de sua postura de justiça, condenando atos autoritários dos políticos locais. A igreja bonita que temos hoje em Frei Paulo devemos ao padre Antônio Leal Madeira. Ele se esforçou para construir apesar da pobreza da cidade. A antiga igreja foi demolida e em seu lugar ergueram a atual com essa torre alta e seu interior em estilo clássico com lindos afrescos. Também a casa paroquial foi ele que construiu. Por mais de 20 anos foi vigário de nossa cidade, mas esteve afastado certo tempo permanecendo em Alagadiço tendo em vista retaliações que sofreu, por isso mandava outros padres celebrar a missa.
Foi uma briga feia que teve com Pedro Lima, que naquela época era o cacique político da região, já tinha sido intendente e usufruía de muito prestígio político, mas era um sujeito extremamente duro com seus adversários, não conseguia conviver com os que se opunham a sua ideologia de ultra direita.
As perseguições que encetava, eram tão devastadoras que até mesmo seus correligionários reprovavam. Padre Madeira repudiava esse seu comportamento eivado de requintes de perversidade, no sermão, descia-lhe a ripa, criticando suas práticas execráveis.
Por isso, ele mandou prender o Padre Madeira. O fato só não se consumou pela interveniência providencial de sua esposa D. Creuza, que alertou ao marido que se ele prendesse o vigário, a cidade inteira iria se revoltar contra ele e com certeza ele logo perderia o prestígio político. Mesmo assim o clima ficou feio e por isso o Padre Madeira se afastou por alguns anos. Para o desgosto dos freipaulistanos que por ele nutriam muita admiração e carinho.
Padre Madeira, tinha lá suas manias, um dia ao ouvir o repicar dos sinos de “finados”, perguntou quem morreu. “Foi o Sr Coelho” Mandou imediatamente suspender as exéquias na igreja, pois o finado não se confessou nem recebeu a extrema unção.
Ele só fazia a encomenda de uma alma com o caixão aberto. Certo dia chegou um morto à igreja, “nois viemo tomando cachaça até aqui pra agüenta o fedô” disse um parente, mas padre Madeira fez questão de mandar abrir o caixão. Começou a resmungar algumas palavras do ritual: “Résquie eterna dona domine” E disse: “Fecha logo... vá feder assim no inferno... desgraçado”.
Minha avó, D. Mizinha, de saudosa memória era quem nos contava essas histórias, que hoje estão no seu livro de memórias que sempre gosto de reler. Ela conta que os sermões do Padre Madeira eram revestidos de erudição, dava gosto assistir suas pregações dominicais. “Falo ‘ex cátedra’ da cátedra de São Pedro para transmitir a palavra de Cristo”, a matutada ficava boquiaberta. Era português, por isso, as vezes era difil decifrar suas palavras.
Quando minha avó D. Mizinha, se casou com Tonho Carpina a sua pergunta foi interessante:"Mizinha você quer se casar com um rapaz de uma família que ninguém conhece?"
Foi também o padre Madeira o responsável pela primeira visita episcopal de Frei Paulo, o bispo era Dom José Thomaz, foi uma festa para a cidade que recebeu de braços abertos a visita dessa autoridade eclesiástica, um acontecimento que entrou para a história. Ao deixar Frei Paulo organizou-se sua despedida na igreja, muita gente chorou quando o Padre Madeira partiu, pois era amado pelos freipaulistanos.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A pantera negra dos sertões


Natal pelo que todos sabem, cai no dia 25 de dezembro, data máxima da cristandade comemorada em todo mundo. Mas quando eu era criança, não perdia a festa de natal de Alagadiço que acontecia lá para o dia 7 de janeiro. Alagadiço é um povoado de Frei Paulo muito famoso pela sua estreita ligação com o cangaço. Terra do sertão brabo de homens destemidos, foram eles que deram cabo ao cangaceiro Zé Baiano, o terrível facínora que por décadas aterrorizou os sergipanos daquela região. Ele era conhecido como “A pantera negra dos sertões”, seu tipo físico lembra um antropóide. Era um sujeito mau, traiçoeiro e desalmado, sempre disposto a agir covardemente atacando os comerciantes locais, caixeiros viajantes, matando-os impiedosamente. Ele foi morto por um grupo liderado por Tonho de Chiquinho, coiteiro de Lampião que armou uma emboscada para liquidar o bandido e seus comparsas. Lampião ainda voltou a Frei Paulo para vingar a morte do amigo, mas preferiu fugir para a Bahia, ao saber que havia uma barricada com homens fortemente armados para impedir sua entrada na cidade.
O Padre Madeira, pároco que tinha muita coragem e até estoicismo, colocou na igreja um caixão vazio, e por isso Lampião não invadiu a cidade naquela noite, tempo suficiente para armar os homens e entrincheirar para rechaçar um possível ataque dos cangaceiros; eles logo souberam que tinha até uma ronqueira (pequeno canhão). Muitas vezes o padre Madeira cruzou com Zé Baiano e seu bando. Numa ocasião, foi abordado pelo facínora na porteira de uma fazenda. O padre foi logo dizendo: “Será que não se pode mais pregar o evangelho neste sertão?” O bandido abriu a porteira e beijou a sua mão, “Sua abenção, Padre Madeira”. Ele não respondeu, tirou do alforje um lenço e limpou a baba do maldito e seguiu montado no seu jegue , ao se distanciar um pouco resmungos: “ Vai para os diabos”
Zé Baiano era um sujeito perverso, conhecido como o ferrador de mulheres, muitas foram cruelmente ferradas no rosto com a marca JB, ele trazia um ódio profundo no peito e raiva das mulheres por conta de uma traição que recebeu de uma de suas namoradas. O seu nome era Lídia, flagrada em adultério foi morta por ele a pauladas.
Em Alagadiço, existe um museu, onde objetos pessoais dos cangaceiros são expostos ao público. Foi criado pelo escritor Antônio Porfírio, que inclusive já publicou um livro onde relata a vida de Zé Baiano. Na hora de sua morte ainda tentou negociar, oferecendo vinte contos de reis para que seus vingadores o deixassem ir embora, mas estes, lembrando-se de suas atrocidades; praticadas contra homens de bem da região desferiram contra o bandido, vários golpes de punhal. “Matou-me agora” disse Zé Baiano ao sentir a terceira punhalada e completou:” morreu o homi de Sergipe”. Isso aconteceu em 7 de julho de 1936, ao fim da ação quatro cangaceiros estavam aniquilados ali na caatinga de Lagoa Nova em Alagadiço. Morreram além de Zé Baiano, Demudato, Chico Peste e Acelino.

terça-feira, 13 de março de 2012

O Tanque dos Cavalos


Toda da cidade que se preza tem sua praia ou sua piscina, para nos momentos de lazer seus habitantes se refrescarem desse calor tropical. Na cidade de Frei Paulo, a porta de entrada do sertão sergipano, o Tanque dos Cavalos, um lago formado pelas águas da chuva é que atraia a molecada para mergulhos refrescantes e muitas aventuras. Sempre representou um perigo imeinente para a maioria das mães, muito embora não se conheça registro de mortes por afogamento. Suas águas amareladas, barrentas, porém refrescantes, eram propícias a brincadeiras incríveis. Alguns adultos também iam se banhar, era comum observar matutos de calção se esfregando com sabonete de alcatrão e depois mergulhando em suas águas.
Aventura garantida para toda a molecada neste local que tem as margens cheias de arbustos, arvoredos e na direita, três grandes baraúnas que além de oferecer uma sombra muito agradável servia de trampolim para saltos ornamentais incríveis. Uma dessas árvores tombou para dentro do tanque e com isso se tornou um lugar ideal para os saltos. Um dia, Beto irmão do Galego do Tanque, neto de Sete Quedas, abriu a cabeça ao mergulhar e acertar um pedaço submerso dessa árvore. Foi praticamente escalpelado.
Alguns tocos da velha baraúna tombada, serviam de bóia para os mais afoitos irem até o meio do tanque, onde dizem haver um “porão” de muita profundidade. Ali nadadores exímios se exibiam indo até o fundo e trazendo lama na mão. Já tentei fazer isso por diversas vezes e nunca conseguir, na verdade tinha muito medo de me afogar. O tanque dos cavalos não era tão somente um balneário, era usado de forma indiscriminada por muita gente, para lavar carros, para dar água aos animais, para lavar os vasos de leite.
Apesar de ser agredido pelo óleo e pelos dejetos, resiste bravamente e quando o inverno chega, cresce e alaga vários terrenos vizinhos dando origem a um pântano. Ele é pródigo em peixes de várias espécies, e mata e já matou a fome de muita gente. Nas suas águas, já batidas, por pescadores de anzol, tarrafa e rede de arrasto, encontra-se corrós, tilápias, traíras, muçuns, cágados d’ água, caboges, jundiás e muitas piabas, e, ainda um peixinho minúsculo conhecido por barriguda. Essa era a fauna aquática desse grande reservatório de água da chuva.
Ao olhar atenciosamente suas margens, nota-se ondinhas coloridas, efeito da poluição causada pelo óleo dos carros. No barro no qual repousa, caramujos transmissores do schistosoma. Algumas crianças da redondeza, principalmente as que se banham diariamente nas suas águas, possuem aquela barriga grande, típica da doença. E ali, alheios ao perigo todos nós mergulhávamos por horas e horas entre risos gracejos e algazarras. Brincadeiras pesadas quando da patota integrava amigos como Airton de NIcinha, Bento de Diógenes e Escorrego. Vez por outra uma mãe aflita aparecia à procura de algum filho sumido, já sabia onde o encontrar.
A ida ao tanque dos cavalos era sempre boa, descendo a ladeira do Curral do Açougue, porém a volta pra casa nem sempre era um mar de rosas, tendo que subir ladeira sob chicotadas, tapas e xingamentos de toda sorte, parecia que o lugar era amaldiçoado pelos pais, não sei até hoje por que. Queria assustar alguém dissesse. “Sua mãe está lhe procurando por toda a cidade” Imediatamente o banhista pegava suas roupas e disparava ladeira acima alguns até chorando.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um mestre do bom humor


Um dos personagens mais marcantes de Frei Paulo chama-se Jofre Nunes. Era engraçado sem ser palhaço, possuía um senso refinado de humor e conhecimento de vida adquirido durante sua permanência no Rio de Janeiro onde morou por muitos anos. Um dos maiores prazeres que eu tinha era quando ouvia alguém dizer: Jofre está na cidade. E foram muitas as suas visitas até se mudar para Frei Paulo definitivamente no início dos anos 80. Era um cara muito ilustrado, bem humorado, inteligente e obcecado por palavras cruzadas.
O seu ponto era ali na praça em frente à farmácia de Faroaldo, ele chegava falando com o grupo que ali se reunia, brincava, fazia ironias, pilhérias e depois se concentrava no seu mundo particular, decifrar os enigmas dos coquetéis da vida, claro aqueles que vinham com a palavra “difícil”. Era um crítico mordaz, de tudo e de todos, mas também amigo e solidário, por isso era muito admirado por todos.
Ele chegava sempre com seu fusca semi-novo e logo um grupo se formava para ouvir as histórias do ilustre visitante, sempre sorridente e com uma piada na ponta da língua. Quando a nossa turma se aproximava dele fazia perguntas para testar “conhecimentos gerais” e quem matava as charadas era prendado com um sorvete da sorveteria do Natan. Aliás, esse sorvete ganhou fama em todo o território nacional, é de fato muito gostoso e apreciado por turistas. Os mais preparados, o seu sobrinho Gilmar de Dezinho, Sergio Santos e eu, adorávamos essa sabatina.
Mas um dia ele resolveu ir morar definitivamente em Frei Paulo, deixou o Rio de Janeiro e constituiu nova família, passou então a ser representante do jogo do bicho em Frei Paulo, e, também perdeu aquele ar de importância, enquanto se incorporava à rotina da cidade. Alugou uma casa no Beco do Talho, e dividia seu tempo entre a leitura e as cruzadas e na rua as anotações do jogo do bicho. Ele era um fumante contumaz, devorava diariamente vários marços de cigarro Continental, isso minou sua saúde.
Suas tiradas eram desconcertantes,certa feita ele comia um pão doce e uma distinta senhora o abordou: "Mas Seu Jofre, um homem como o senhor comendo na rua?" Ele deu um sorriso e respondeu: "Será que vou ter que alugar uma casa para comer um pão?"
Jofre passava na avenida, mascava alguns caroços de abóbora o que dava a sua saliva uma consistência encorpada e disparava uma cusparada que alcançava uns cinqüenta metros, sem exagero. A pontaria também era infalível. Ele me disse que no Rio era campeão de cuspe à distância, não duvidei e fiquei admirado com aquilo, jamais havia visto tamanha façanha. Era apaixonado por jogo, falava com empolgação das corridas de cavalo e disse que já apostou até em corrida de cachorro. Encarava o jogo do bicho como profissão, todos os dias ia para Itabaiana levar as apostas no seu fusca de cor laranja.
Certa vez em uma visita a Aracaju sofreu um acidente de carro e quebrou a perna, muito pensavam que era o seu fim, já avançado na idade fadado a ficar numa cama, só fumando. Estavam enganados, mesmo de perna engessada, subia numa bicicleta monareta e pagava os moleques para empurrar por toda cidade, em alta velocidade descia a Rua de Itabaiana e mergulhava na curva da praça. Ele fazia isso com a maior naturalidade. Na porta da farmácia sentava confortavelmente numa cadeira e lia Papillon, às vezes interrompia a leitura para contar a sabedoria do presidiário para fugir da ilha no saco de côco. Narrava a historia como um grande orador. Ele informou que no Rio já trabalhou dublando filmes.
Os anos foram passando, mudou-se para uma casa na Praça da Feira, Jofre cada vez mais debilitado, mas mesmo assim não abandonava as brincadeiras e o bom humor, magro e abatido, arquejando já não era mais o mesmo, de sua geração quase nenhum mais era vivo, viu os filhos da nova família ficarem rapazes. Colocaram nele o apelido de Hailander, talvez provando do próprio veneno, pois nas palavras do velho Jofre superabunda o sarcasmo.

domingo, 11 de março de 2012

O rei da brincadeira


Um dos amigos que mais admirei em Frei Paulo na minha infância foi Dudu. Ele realmente era um cara super inteligente, e mestre em organizar a molecada em brincadeiras sadias. Era um leitor inveterado de gibis e colecionava verdadeiras preciosidades naquela época: Fantasma, Batma, Tex, Asterix e Tio Patinhas. A poucos ele emprestava suas revistas e também entre a nossa turma uma meia dúzia cultivava o hábito da leitura. Sua casa na Rua de Itabaiana guardava tesouros em brinquedos. O seu pai era mudo e a mãe D. Neildes, uma senhora generosa e muito paciente com o estilo de vida do filho. Todos queriam participar das criativas brincadeiras. Só de carrinho para puxar com barbante, Dudu possuía uma frota e cada um dos amigos tinha o direito de passar o dia com ele . Minha preferência era um jipe amarelo de plástico, adaptado com feixes de mola feitos com fitas de enrolar fardo de algodão. O carro possuía um molejo nas curvas tinha boa estabilidade. Outro de sua frota era um caminhão de madeira trucado, o maior de todos. Celso de Zé Pequeno também preferia esses dois carros, motivo de grande rivalidade e de discussão, logo apaziguadas com as sábias palavras de nosso líder.
Dudu era um jovem muito paquerado por lindas meninas da cidade, mas ele parecia se preocupar mais com as brincadeiras, já avançado na adolescência não acompanhava sua geração e ocupava seu tempo livre em brincadeiras como essa de puxar comboios de carrinhos pelos sítios da redondeza. Nosso grupo ia para Chã e de lá voltávamos carregados de castanha. No quintal de sua casa o tacho fumegante torrava as castanhas para o preparo de um fubá delicioso feito com castanhas pisadas e farinha de mandioca. O cheiro da fumaça do azeite é um perfume que nos remete à infância. De noite a gente se fantasiava de índio , cada um tinha seu nome: Touro sentado, Duas Penas , Apuanã etc. Imaginação e muito divertimento era o que não faltava.
Os meninos de minha geração adoravam essas brincadeiras e Dudu, sempre sorridente nos apresentava cada dia uma nova idéia, tudo num clima ótimo de muita paz . D. Neildes assistia a tudo com muita naturalidade. O seu pai o mudo,não interferia , mas à tarde a casa dava lugar a uma escola, uma banca que era conduzida pela sua irmã Maria, uma enérgica professora, que gostava de castigar alunos traquinos. Eu estudei lá e sei disso. Das dezenas de amigos de Dudu, poucos tinhas o privilégio de aos domingos ir para a propriedade da família que ficava ali , depois do Alambique de Seu Antônio de Germino. Naquela malhada, corríamos com os cachorros e as diversões se estendiam até a noite com a participação de Gileno, o morador, e Henrique o irmão mais velho de Dudú, um cara espetacular, super agradável . Ele não era letrado como seus irmãos mais novos, mas era educado e muito atencioso. À noite adentrávamos a mata, próximo ao açude Buri em caçadas noturnas que resultava em capangas cheias de rolinha pitui. Devoradas com cuscuz com leite, essas aves eram uma iguaria apreciada muito pelos freipaulistanos foram praticamente extintas. Foi Zé Barbeiro quem vaticinou: "Deu uma murrinha e acabou tudo".
Porém, um certo dia fomos para a casa de Dudu e ele já não era mais aquele magricela imberbe, o convidamos para brincar e ele respondeu que não haveria mais brincadeira e saiu de mãos dadas com a namorada, uma moça muito bonita de nome Hélia. Algum tempo depois ele foi aprovado em um concurso do Banco do Brasil e até hoje trabalha no banco, casou com outra moça e teve filhos lindos. Morava numa chácara, levando uma vida de muita privacidade, não sei se mora ainda em Frei Paulo. Mas uma coisa é certa, ele foi um dos melhores amigos que já tive nessa vida. E com certeza são tempos que não voltam mais, por isso agradeço a Deus por ter vivido intensamente cada momento.

sábado, 10 de março de 2012

Dias inesquecíveis no sítio


Quantas e quantas vezes, eu deixei a casa de minha mãe no Beco do Talho, cruzei a Av. José da Cunha. Minha figura esquálida de longa cabeleira escura desfilava sob a sombra dos oitizeiros depois passava em frente a Casa das Irmãs, as devotas freiras da paróquia, as quais faço questão de destacar a Madre Martins e a Irmã Heliege. Uma olhada pela janela lá estava um grupo de jovens a imprimir no mimeografo, o jornal O Ajo, com suas engraçadas fofocas, uma leitura pra lá de divertida. Tempos depois, passei a ser redator das tais fofocas, isso deve ter sido a minha primeira incursão no jornalismo. Um olhar de soslaio naquela movimentação, e seguia em frente, dobrando rapidamente no Beco da Santa. O destino era certo, um pequeno paraíso. A casa que possuía um quintal muito grande, na verdade um sítio bem ali no centro da cidade. Estou falando da maravilhosa residência dos meus padrinhos, Seu Domingos e Madrinha Iaiá. A casa simples possuía um corredor que ia dar na ampla sala onde Seu Domingos, um homem muito bondoso, magro e careca passava a maior parte do tempo numa cadeira preguiçosa. Quando eles me viam abriam um sorriso, pois ali, sempre soube me comportar. Em outros recintos, sempre representei uma ameaça, com a mente voltada para aprontar as maiores traquinagens, sobretudo, causar prejuízos, o que sempre acabava em surras.
Naquele paraíso, que lembra obras de Monteiro Lobato, vivi momentos inesquecíveis, ali sempre fui bem comportado e prestativo, um doce de menino para meus ótimos padrinhos. Logo depois da sala estava a cozinha, nela Madrinha Iaiá, sempre às voltas com preparos deliciosos, pratos que cheiravam tanto que da rua já se sentia o sabor inigualável das comidas deliciosas de sua cozinheira “Jovi”, uma autêntica Tia Anastácia do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ali um esfumaçado fogão de lenha enchia as paredes de fuligem e num arame próximo às telhas escurecidas um arame pejado de mantas de carne seca, lingüiças, barrigas de porco, por meses sob o efeito diurno da fumaça dos deliciosos pratos. Doces maravilhosos de todas as frutas colhidas no seu tempo ali mesmo no quintal
Todas as frutas tropicais eram fartas naquele lugar, e até mesmo algumas exóticas que não se achava na feira. Ali perto da casa, um enorme pé de tangerina, as mais doces do planeta, esta ficava ao lado do pé de carambola, visinho da jaqueira que produzia pequenas jacas duras, que tinham a cor de ouro e causavam inveja ao mel a sua doçura. Os cajueiros e mangueiras pareciam em sintonia produzindo enormes quantidade de frutos.
Mesmo antes de o sol raiar Seu Domingos já estava de enxada na mão capinando, adubando, cuidando de cada cantinho do seu maravilhoso sítio. Por isso o tempo que levava na preguiçosa era mais que merecido. O cheiro de natureza ainda hoje povoa a minha alma. Como eu gostava daquele lugar. Bem no centro da pequena propriedade um cafezal onde se colhia o café que estava sempre cheiroso na mesa. Ah, o café, que café aquele, inigualável. Eu esperava por esse momento com certa ansiedade. Madrinha Iaiá, trocava algumas palavras carinhosas com o marido e lentamente se dirigia à cozinha e com sua voz, que não esqueci o timbre, falava “Jovi faça um café”.
Claro que isso demorava. Ela se dirigia ao quintal onde sobre alguns plásticos estendidos, as frutinhas secavam ao sol. Ela pacientemente apanhava um bocado e colocava numa panela, depois num grande pilão socava, socava por uma meia hora. Depois ia ao fogão de lenha e levava mais algum tempo e trazia de lá uns torrões de cor amarronzado e de novo socava no pilão. Passado uma hora, servia a deliciosa bebida numa chaleira de ferro. O cheiro daquele café era sentido de muito longe. Jamais provei um tão gostoso, era fortíssimo e dava uma energia incrível. As horas no sítio pareciam eternas, entre o cacarejar das galinhas o ciscarem dos pintinhos, o canto de pássaros, a tarde ia caindo do céu.
Hora de voltar para casa. A despedida era um ritual não menos prazeroso, Seu Domingos entrava no quarto, pegava uma cédula (daquelas vermelhas de dez cruzeiros com a foto de Santos Dumont) e agradava seu afilhado, enquanto aos santos pedia proteção para mim e minha família. "Que Deus te abençoe meu filho." Então eu voltava para casa muito feliz, jamais abusava dessas visitas, para não cansar meus adoráveis padrinhos, por isso sempre que eles me viam faziam uma festa.