terça-feira, 1 de maio de 2012

O cântico dos penitentes

Sou de um tempo em que a Sexta- Feira da Paixão era dia Santo mesmo. Em Frei Paulo nesse dia parava tudo e em clima de muito respeito e silêncio absoluto acompanhávamos a procissão de Senhor Morto cruzar as ruas e praças da cidade. Era um cortejo fúnebre. Na frente Seu Elpídeo solenemente conduzia a cruz, e um pouco atrás a imagem do Senhor Morto transportado em andor sob uma cobertura lilás. Ouvia-se o silêncio das pisadas. Aquele silêncio sepulcral, que era quebrado tão somente pela revolta das matracas. Era um clima de muita comoção e respeito, todos os bares fechavam e ninguém se atrevia a beber nem sequer um cálice de vinho. Era um espetáculo taciturno, mas revestido de muita beleza. Orações sem muito alarde. Pode-se dizer que o silêncio predominava nesse pomposo cortejo. Depois da procissão a imagem do senhor morto que durante todo o ano jazia por trás de um vitral, é depositada no altar. Até as dez da noite era visitada pelos fieis que beijavam os pés da imagem e do lado deixavam suas ofertas. Até mesmo o timbre da voz do padre João Lima mudava durante a celebração das missas nesse período. A fé e a religiosidade em Frei Paulo é algo inerente à própria cultura do povo. Dos povoados multidões se formavam para vivenciar esse período da páscoa. Com suas diversas manifestações sagradas e profanas. Muitos vinham se confessar e acompanhar os rituais sagrados da semana santa. A meia noite os penitentes adentravam a igreja gerando um grande suspense. Essa tradição em Frei Paulo sempre esteve muito viva e ligada ao sincretismo religioso local. Todos os anos, no período da Quaresma, entre a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão, alguns fiéis realizam o ato da penitência. Esse grupo, chamado de Penitentes, veste-se com lençóis brancos e percorrem várias igrejas, cruzeiros e o cemitério da cidade, rezando pelas almas dos mortos. Os Penitentes são divididos em dois grupos: os Alimentadores de Alma, que fazem orações pelas almas e chacoalham um instrumento chamado de matraca; e os Disciplinadores, que durante o ato de penitência se martirizam com chicotes providos de lâminas na ponta, causando cortes por todo o corpo, derramando sangue, com o propósito de reduzir os pecados. Eles geralmente saiam da Serra Redonda e vários pontos eram visitados, o cemitério, o açude, os cruzeiros e capelinhas de diferentes pontos do município, em apenas uma noite eles percorriam tudo isso a pé. Muita gente até hoje tem muito medo dos penitentes. Mas poucos procuram entender o sentido de seus rituais. Em Frei Paulo alguns deturpavam essa tradição e iam ao encontro deles para provocar os religiosos e estes sempre reagiram com violência com esses baderneiros. Usando para isso seus chicotes purificadores isso também faz parte da tradição. A Procissão dos Penitentes que remonta à Idade Média é uma manifestação que tem se afirmado pelas suas singulares características, Os anos passam e essa tradição se torna cada vez mais viva e conta com a adesão de muitos jovens de Frei Paulo, estes sempre preocupados em manter o sigilo de seus rituais religiosos. Os penitentes se reúnem todos os anos para rezar e entoam cânticos tristes. Vestidos em suas mortalhas brancas trazem sempre na mão seus chicotes e cantando seus “benditos”; hora somente com suas vozes; hora acompanhado por tristes toques da zabumba e pelas ruidosas matracas. Esse sempre foi o solene, melancólico e respeitoso cântico dos penitentes

sábado, 28 de abril de 2012

O patriarca dos transportes

O empresário José Lauro Menezes Silva tem participação ativa na história de Frei Paulo. Com sua empresa que já atua no setor de transportes há mais de 50 anos, mudou a maneira de viajar dos sergipanos, em Frei Paulo não foi deferente. Uma existência devotada ao trabalho e ao desenvolvimento de Sergipe, assim foi a trajetória de José Lauro. Ele é o exemplo vivo de que sonhos podem virar realidade. Outro dia assisti a um pronunciamento do Pastor Virgílio, vice presidente nacional do PSC, no plenário da Assembléia Legislativa de Sergipe. Uma frase desse sábio pastor me chamou a atenção: "Deus não abençoa preguiçoso" Isso é a pura verdade, Deus ajuda a quem trabalha e José Lauro Menezes, desde a sua infância, foi um cidadão fascinado pelo trabalho e um obstinado perseguidor de seus ideais. Tudo começou há pouco mais de cinqüenta anos, quando o empresário Oviêdo Teixeira pai de sua esposa Gilza Teixeira, um inquieto investidor, teve a brilhante idéia de comprar três marinetes. Oviêdo queria que sua filha morasse em Aracaju e deixasse pra trás a vida bucólica que levava na Fazenda Maxixe em Riachuelo, propriedade de Zeca Barbosa pai de Lauro Menezes. Em 24 de fevereiro de 1960 surgia a Empresa Senhor do Bomfim. Lauro nunca abandonou sua atividade agropecuária. Mas dedicou-se de corpo e alma ao novo negócio. Mas foi com muito entusiasmo que abraçou a nova empreitada. Em pouco tempo realizou um panorama de investimentos que projetou a empresa para o futuro e esta cresceu, gerou muitos empregos e facilitou a vida de muita gente, tornando-se um marco do desenvolvimento e do progresso de Sergipe. Lembro de minha infância em Frei Paulo, nos fins dos anos 60, quando os viajantes acordavam às 4 horas da manhã para embarcar com destino a Aracaju no "Caminhão do Leite" uma perigosíssima aventura a que muitos ali se submetiam. Era uma viagem gratuita, mas muito perigosa. Agarrados em vasos de leite, estudantes partiam para estudar no Colégio Agrícola Beijamim Constant, às vezes sob forte chuva. Trilhando em alta velocidade as estradas de piçarra do sertão. Quantas vidas foram ceifadas nesta aventura inglória? Em contrapartida, era gratificante ver adentrando a nossa querida cidade, os modernos ônibus da Bomfim, muito embora a modernidade não tenha dado fim ao risco do carro do leite. Lembro a primeira vez que andei de ônibus, foi com meu pai, fomos para Carira visitar nossos parentes, minha tia Esmeralda, meu tio Ciro e meu avô paterno Totonho Pacífico. Sentei na primeira poltrona e me deliciava com o conforto. Com a belíssima paisagem que parecia um filme passado na janela do ônibus. Mesmo naquelas empoeiradas estradas, era uma viagem segura e confortável, naquele tempo ainda não havia asfalto. Foi o elevado tirocínio empresarial de José Lauro fator primordial para a modernização do transporte de passageiros em Sergipe, gradativamente ele foi ampliando linhas, ligando a capital a diversas cidades do interior e posteriormente a outros estados do Nordeste. Isso numa época em que o transporte se resumia a carroças puxadas por jumentos. E os desconfortáveis e perigosos caminhões pau de arara. Lauro Menezes preserva o vigor e a energia dos grandes guerreiros, um exemplo a ser seguido pelas novas gerações de empreendedores. Lauro da Bomfim é um empresário cuja importância para o desenvolvimento de Sergipe é imensurável. Pode-se dizer sem medo que sua vida se confunde com trabalho, honestidade e coragem. Um empresário que muito tem contribuido para o desenvolvimento econômico de Sergipe. A Bomfim tornou-se uma empresa que é referencia para o Nordeste, sua frota possui os melhores ônibus, e o gerenciamento está sempre atento ao avanço tecnológico do setor de transportes, agregando valores e investindo em tecnologia. Outra característica marcante de sua atuação empresarial é o investimento no ser humano, segundo o próprio empresário, o maior patrimônio da empresa. A Bomfim para atuar sempre na vanguarda não poupa investimentos nos seus funcionários. Esse sempre foi o nobre objetivo de José Lauro perseguido com o mesmo entusiasmo de sempre.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dia de careta

“Cara de Gata, Cara de Gata” diz o animado refrão da marchinha carnavalesca , tocada no baile onde tantos risos e danças , talco e serpentina se misturavam nos confins da minha infância. O bar de Dário ficava lotado de foliões, bem em frente os casais flertando lá pelo coreto. De dia essa alegria que contagiava os freipaulistanos e visitantes. Chegava à noite, lá pelas 20 horas no melhor da noite, elas chegavam para meu desespero. Eu era uma criança medrosa que tremia nas bases quando me deparava com aquelas criaturas horripilantes , tenebrosas, chifrudas. Elas se comunicavam através de um ruído e aquele ruído era onomatopeicamente assim (phrriiinnn).“arrrrgh, arf, arf,uf, uuf. Fiuuuuuuuuu arrrgh, arf, arf, uf, uf, uf arrrrrrrrrrrrrhg! Uf!!” Chega ... As caretas para mim causavam um trauma. Eu me lembro quando certo dia sai do baile , e fui tenebrosamente assustado por uma delas. Olhos de fogo, cabeleira aloirada e eu ali imóvel , indefeso, vulnerável. Quantos anos faz isso? Depois eu mesmo virei uma careta, tão somente para superar esse medo. Mas toda vez que me vestia de careta, era desmascarado e humilhado. Olhavam pra mim e diziam olha quem é e já iam puxando a máscara, e tome-lhe safanão. Era uma grande humilhação. Costumavam fazer isso com caretas pequenas. Um dia me vesti diferente, como um verdadeiro capeta, vesti roupas pretas, pintei de piche a careta e fui para a rua com meu bando de caretas. Mudei até o caminhado e naquele dia assustei um monte de crianças. Senti-me de fato uma careta. O carnaval em Frei Paulo tinha essa tradição momesca que aos poucos foi sendo esquecida. Havia bandos enormes de caretas no carnaval de minha terra. Os grupos se reuniam na rua do monturo e eram muitos, Mechó, Penacho , Canguçu, Beto de Joaninha, Seu Moleza, Espigão, Bufa, Nanão, Mú, Cara Véia entre vários outros. As mães advertiam “vá dormir cedo menino, hoje é dia de careta” E as caretas faziam um espetáculo que antecedia o show da orquestra comandada pelos membros da Filarmônica. O Grêmio Sesquicentenário era tomado pelas lindas colombinas e aqueles beberrões a abrir alas no salão de baile. E haja talco e serpentina, de confete o chão virava tapete. (Segundo alguns estudiosos, a origem da festividade não faz parte do período carnavalesco, mas do Natal, quando dois Mateus de um reisado se embriagaram durante a apresentação e foram proibidos de participar da manifestação. Inconformados, eles vagaram fantasiados pelo município, fazendo barulho com um chocalho e inaugurando a brincadeira.) Mas o carnaval de hoje é bem diferente assim como foi diferente num passado ainda mais remoto e será bem diferente no futuro, afinal carnaval é sempre a mesma coisa só mudam as caretas. Zé Matos e Pedro de Elpídeo mandavam ver no trombone e a bateria impecável dos filhos de Elizeu, faziam do nosso carnaval em uma pequena cidade de interior , uma festa de pompa. Eram quatro dias de muita animação e brincadeiras insondáveis. Hoje quando vejo nosso carnaval, me dá vontade de chorar de tristeza, não que seja saudosista, sempre carnaval pra mim foi sinônimo do escárnio humano, mas essa alegria não me convence, acho definitivamente que envelheci, ou virei careta.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O professor Tupinambá da Bahia

Na minha infância de menino travesso no sertão sergipano, convivi com figuras que muito bem poderiam povoar as páginas dos romances do genial Gabriel Garcia Marques, autor do best seller “Cem anos de solidão”. Eram tipos inesquecíveis . Meu pai era dono da Farmácia São Paulo em Frei Paulo. E ali ao meu lado, arrumava as caixas de remédio que um representante acabara de trazer, quando entrou na farmácia um sujeito muito esquisito , cabelos longos e negros, bigodão, olhos rodeados de infinitas pálpebras, vermelhos, indormidos. -Um envelope de Engov, por favor. Seu Bastos se dirigiu ao balcão e de dentro tirou o pedido do tal forasteiro e o entregou. Ele imediatamente começou a amassar o envelope transformando-o numa bolinha enquanto com olhar fixo pronunciou: -O Senhor tem condições nacionais e internacionais de me confiar esse remédio. Seu Bastos, com aquela fúria no olhar, passeou velozmente o palito de um lado a outro da boca e arrebatou de suas mãos os comprimidos e bradou um rotundo não. O tal homem sem camisa, aparentando ter lá seus 60 anos, seguiu em direção a pensão de D. Zefa, com aquele caminhado desengonçado cruzou a praça Capitão João Tavares. Achei-o engraçado e sai atrás dele. Na hora apareceu Geraldo de Mané Bonzinho e passamos a seguir o curioso estranho. Dirigiu-se a nós de forma amável e cortez, parecia um anjo, e nos convidou para um passeio em seu carro. Assim que sentamos no banco traseiro, ele arrastou com seu opala velho em alta velocidade na direção do Curral do Açougue, não parava de desferir tapas e mais tapas. (foram momentos de tensão e muito medo) Nosso choro não sensibilizou o facínora, que a toda velocidade rumava em direção a Carira. Ele se deliciava com a situação. Que sujeito mais esquisito. Por sorte, o carro faltou gasolina e ele foi lá mexer no motor. Já próximo à ponte do Rio Salgado. Eu e meu colega escapamos e voltamos a toda para a cidade. Isso aconteceu numa sexta-feira e sábado pela manhã no meio da feira lá estava ele cercado de gente incauta. Pregava ele com seu olhar místico, como os profetas do velho testamento, a pregar o apocalípse: "Eu sou o Professor Tupinambá da Bahia, passei duzentos anos na mata virgem comendo planta e raiz de pau". Pronunciava com profunda convicção essas palavras. O cara era um celerado, um louco, mas era criativo. Não faltava quem se dispusesse a pagar uma consulta onde ele procurava arrancar cada centavo dos pobres sertanejos, mediante mentiras criadas na hora, para cada situação. Hora dizia que a vítima estava sendo traído pela mulher. Por outra era o irmão que estava querendo lhe passar a perna na herança. O professor era um picareta de marca maior, um famoso vigarista, um salafrário e ladrão que tinha como profissão engabelar os coitados que caiam no seu conto. Dizia ele, a um agresteiro: “Não faça feira não para aquela infeliz, dê esse dinheirinho ao Professor Tupinambá que tudo vai ficar bem na sua vida. E num canto, se contorcia, fazia presepadas com as mãos e orações que pelo jeito deviam até falar mal de Deus. Esse famigerado Professor Tupinambá vivia pelas feiras do Nordeste enganando a um e a outro na sua vida de charlatanismo profissional. Talvez por isso, tinha a triste sina de ser um beberrão incorrigível. Por isso no auge da ressaca ia para as farmácias mendigar um comprimido de engov. Assim que acabava de atender um cliente, aquele pobre diabo ia direto para a vendinha e entornava um copo cheio de cachaça. Fumava desbragadamente cigarros da marca "Gaivota". Tinha na face, como que escrito que era um vigarista, mas mesmo assim, não faltava quem caísse no enredo de suas tramóias. No pescoço trazia vários colares do candomblé. Cabelos longos, negros em desalinho, barba por fazer. Um bigode que ele cuidadosamente enroscava nas pontas. Era branco, musculoso e ostentava um corpanzil corcundo, barrigudo e o rosto cheio de rugas. Sua voz lembrava o ronco de trovão, seu olhar traduzia uma constante sensação de desespero. Olhos injetados e se expressava gesticulando em demasia. Domingo bem cedinho, do alto falante da Matriz, ouvia-se a voz do Pe. Zezinho cantando "Estou pensando em Deus” enquanto aquela criatura diabólica, desta vez com uma nota de dez na mão, dirigiu-se a meu pai que abria a farmácia -O senhor tem condições nacionais e internacionais e a vista de me vender... - A você nem por um milhão, respondeu Seu Bastos, de cara amarrada!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um gigante do comércio sergipano

Vindo de uma prole numerosa, Oviêdo Teixeira iniciou-se no comércio, com toda humildade, varrendo o chão de uma loja de tecidos em Itabaiana. Depois passou a ser vendedor. Nesse emprego ele permaneceu por dez anos e aprendeu a arte de negociar. Nascido em 10 de abril de 1910, filho do casal João Teixeira e Maria São Pedro Teixeira. (D. Caçula). Em l929 reuniu as economias de sua mãe, algo em torno de 2.400 contos de reis e começou a trabalhar por conta própria. Na cidade de Ribeirópolis, naquela época, chamava-se Saco do Ribeiro ele começou com uma banca de tecidos na feira. Já na primeira semana, apurou 900 reis, então viu que o negócio era bom. Algum tempo depois, surgia a sua loja a Casa Teixeira, que no ano de 1939 aportara em Aracaju. Folheando o álbum de família desse ícone da história de Sergipe, é possível vê-lo elegantemente vestido na época que atuava como mascate, sempre impecável nas roupas da época, era Oviêdo, um batalhador, otimista por natureza. Um jovem empreendedor, que ousou romper as fronteiras do pequeno feudo e partir para negócios mais promissores. E assim fez o Sujeito, como era conhecido, pois a todos se dirigia com essa palavra dita sempre de forma carinhosa. O brilhante historiador Luis Antônio Barreto sobre ele escreveu: "Sabino Ribeiro, Bastos Coelho, José Alcides Leite, Constâncio Vieira, Heráclito Dantas, Pedro e Mamede Paes Mendonça, dentre outros incluindo Oviêdo Teixeira, tiveram oportunidade e venceram, sustentando a atividade produtiva, mesmo quando, o açúcar decaiu, o algodão quase sumiu do mercado, e o arroz do Baixo São Francisco e o gado deram sinais de declínio, empobrecendo dezenas de famílias ricas e poderosas" Se existe um sergipano do qual podemos nos orgulhar é esse tal Sujeito, um desbravador que com sua atuação desenvolvimentista, rompeu com a arcaica política coronelista da época, sendo alvo de perseguições econômicas e políticas. Mas, a sua obstinação não deixava espaço para abrir mão dos seus sonhos. E assim lutou obstinadamente. Foi ao Rio e São Paulo e estabeleceu uma rota de mercadorias para Sergipe, algumas importadas de preço sedutor e qualidade comprovada. Eu era pequeno, lá em Frei Paulo, mas ainda ecoa nos meus ouvidos o carro de alto-falante circulando na cidade, com a musiquinha: " Meu voto é de valor é Oviedo pra senador. Meu voto não tem segredo, pra senador é Oviedo. Eleitor da capital, eleitor do interior, Vamos votar em Oviedo para nosso senador..." Um dia na Praça da Feira no ano de 1966(ou seria na segunda derrota para o Senado nos anos 70) fomos surpreendidos pela decida de um helicóptero vermelho. Havia um vendedor de chapéu de palha, que ficou sem nenhum chapéu, com o vento forte provocado pela hélice da aeronave. Oviêdo desceu e com elegância seguiu a cumprimentar os eleitores na feira de Frei Paulo, onde o povo já nutria por ele profunda admiração. Parecia um sonho, ver aquele helicóptero, pousado ali bem na frente da casa de Seu Antônio de Germino, proprietário da Destilaria Imbira, o homem que trouxe água encanada pra Frei Paulo. Oviêdo não foi eleito senador, mas seu filho José Carlos Teixeira, visto em Frei Paulo como um mito, foi eleito deputado federal e teve excelente atuação em defesa do país De volta à aeronave seguiu, não sem antes acertar as contas com o homem dos chapéus, seu vôo foi para a cidade de Pedra Mole, onde o velho prefeito Laves o esperava. Um amigo a toda prova. Líder nato daquela gente, homem de muito brío. Era um dentre os grandes amigos do Sujeito. A trajetória desse empresário, é conhecida de todos os sergipanos, isso porque ele cresceu pela sua perseverança e dinamismo, entrou para história como um homem honesto, dedicado ao trabalho e a família. Em 1962 ano em que eu nasci Oviêdo já era dono de grandes empresas e sua família igualmente prosperou em outros setores da economia sergipana, tais como, a construção civil, através da Norcom, e transportes, através do sogro José Lauro Menezes da Bomfim. E do senador Lauro Antônio seu querido neto. Dava expediente diariamente na Cimavel concessionária Ford. Além disso, tinha também a Saboaria Celeste. Em 70, a Discar que era comandada pelo irmão Elpídeo e Carlos Lyra sogro. Além de toda essa atuação empresarial Oviêdo era um respeitado criador da raça Indubrasil, suas fazendas eram modelos de como é possível vencer no setor primário da economia. Isso o deixava muito feliz, A Fazenda Salgado em Frei Paulo é o maior exemplo disso. Lá nos finais de semana ele se refazia das mazelas do dia a dia atrás do balcão. Oviêdo era simples, brincalhão, amigueiro e também um homem muito responsável com seus negócios. Eleito deputado, teve uma atuação pautada na ética e na valorização dos anseios comunitários. Em 2010 foi comemorado o seu centenário e entre os depoimentos de parentes e amigos destacamos o de seu filho, o engenheiro Luis Teixeira, ele relata uma viagem à Terra Santa quando o seu pai fez amizade com um jovem punk árabe (é raríssimo punk por lá) depois de encontrá-lo numa loja de lembranças, o jovem se apaixonou pelo jeito simples e o sorriso do Sujeito. Um dia depois numa fila eles voltaram a se encontrar por acaso. Relata Luis, que foi emocionante a manifestação de alegria dos dois. Pareciam velhos amigos. Acho que o sujeito ali reencontrou sua origem cristã. Eu também tive o privilégio de gozar da amizade do Sujeito, sempre ia visitá-lo na sua concorrida mesa na Cimavel. Entre outras coisas pedia conselhos, pois também quero meu lugar ao sol. Outra vez, peguei com ele, uma carona de Aracaju para Frei Paulo, foram momentos inesquecíveis ele contava de sua vida e de sua luta naquelas terras. Um prazer, e uma honra, de ainda jovem beber naquela inesgotável fonte de sabedoria, afinal ali, ao meu lado, estava uma das mais importantes personalidades da vida sergipana do século XX. Oviêdo foi um homem filosófico, antenado com a modernidade ,cuidou para que cada filho tivesse seu vôo próprio e conseguiu. José Carlos Teixeira foi um político que marcou época em sua luta pela fundação do MDB (Na época a única trincheira de luta das oposições.) José Carlos Teixeira nunca se preocupou em ganhar dinheiro, e aquele que era para ser o sucessor do grande exemplo de trabalho da família Teixeira, prosperou no campo das idéias. Tornou-se um fomentador insaciável da democracia brasileira. Os filhos Tarcisio e Luis tocaram com muita competência a Construtora Norcom e a transformaram numa gigante do setor. João na Cimavel segurou a peteca e até hoje mantém liderança em vendas da marca Ford. Enfim, Oviêdo vivia em função da família, para ele mais importante do que a pátria. Era com um ar lacônico que ele falava de D. Alda, a zelosa mãe dos seus filhos que faleceu em 1979 deixando uma grande lacuna em sua vida. Ela o acompanhava nas campanhas políticas em Frei Paulo. Ele morreu em 2001 foi uma perda irreparável para Sergipe. Mas uma coisa é certa, o Oviêdo Teixeira inspira até hoje as novas gerações os jovens empreendedores, e se for para falar em desenvolvimento e progresso em Sergipe haveremos de reconhecer que a sua vida foi uma incessante luta pelo desenvolvimento econômico do seu estado. Um verdadeiro gigante do comércio sergipano. Frases de sua autoria: " Triste do homem que não tem roda familiar" "A pessoa que diz um sim sem carinho , está negando . É melhor dizer não" "Na nossa vida não há problema sem solução" "Ave Maria , quase tive uma vertigem!( Palavra dita logo após um vendedor ter dito o preço de uma peça)" Após 38 anos de comércio de tecidos, sai do ramo. “Há momentos na vida que não podemos titubear” " O trabalho dá saúde e inteligência"

terça-feira, 24 de abril de 2012

Grossura x Lesma de pau

Quem nunca sonhou ser um jogador de futebol? Pois eu nunca sonhei, apesar da paixão platônica pela bola, sempre tive plena consciência de minhas limitações quando se trata de habilidade com a pelota. Na minha infância em Frei Paulo sempre fui o dono da bola e escalado para jogar no gol. Isso gerou em mim uma profunda frustração e por essa razão, há muito tempo não jogo bola, nem no sonho. Mas essa semana, joguei no pesadelo. Acho que exagerei um pouco no jantar e quando me envolvi nos braços de Morfeu, no mais profundo sono, estava já em campo. Era uma partida muito estranha. Minha irmã Erta, era a minha técnica e com a simpatia que lhe é peculiar, foi logo sentenciando. "Prepare-se para perder. você está na final da copa que vai eleger o pior jogador do mundo" Eu? Olhei para os lados e a torcida era um bando de zumbis enfurecidos, jogavam tomates podres e toda sorte de porcaria em mim. O campo tinha as dimensões de uma quadra, uma paredinha e tela. Do lado direito a torcida do meu adversário o Lesma de Pau. Do lado esquerdo a minha torcida que gritava com vigor: "Grossura, Grossura". Onde diabos me arrumaram esse apelido? Perguntei à técnica porque eles torciam por mim, um perna de pau contumaz? Ela foi curta e grossa: “Eles eram torcedores descontentes com o Lesma de Pau e que revoltados torceriam por qualquer um que estivesse ali, por pior que fosse”. Minha torcida parecia bem maior. O juiz era um cara gordo, canecão de cerveja na mão, olhar de durão usava uma camisa puída do Vasco. Pelo seu bigode parecia um português bem ordinário. O apito era uma mine flauta, mas tinha o som de buzina de trem. Minha técnica disse que pesquisou o adversário, Lesma de Pau por muito foi considerado um crack, jogava no CSU, sempre na reserva, mas o alcoolismo o afastou dos campos e passou a jogar buraco. Virou um fracassado, tudo que lhe restou foram velhas e amareladas fotos dos seus tempo áureos. O juiz apitou fomos para o centro do campo, comecei a me aquecer dando pique no lugar e flexão, igual ao Coalhada, foi quando ouvi um estalo. Aíiiiii foi o meu menisco. Chamaram o massagista, quando o negão que lembrava o Geraldão entrou correndo com a maca na mão, fiquei bom na mesma hora. E saí correndo em direção à zaga e comecei a me aquecer. Lembrei de quando era criança e vivia sonhando em ser um jogador profissional, cheguei a tentar entrar no juvenil do Paulistano; foi um vexame o meu teste. Na hora das embaixadinhas só dei uma. E outra na segunda e última chance. Pedro de Elpídio me disse: “sai pra lá seu “perna de pau” Quando o jogo começou vi a bola rolar com desenvoltura nos pés, já não tão hábeis do Lesma, vi em seguida a pelota escapulir na minha direção na altura ideal para soltar aquele canhão. Mas quando chutei com toda força parecia que tinha chutado uma bola de assopro, a bola foi para o lado batendo na parede e voltando ao campo adversário. Olhei direito a pelota no centro do campo e vi a marca "canarinho" e das branquinhas, ninguém merece. O jogo todo só dava isso, os goleiros dormiam o tempo todo em suas rede armadas nas traves. A bola era muito leve por isso nem eu nem o Lesma, conseguia uma finalização, tudo ia parar na parede. O primeiro tempo acabou zero a zero. Fui para o vestiário ouvir os xingamentos de minha técnica. Ainda antes de voltar a campo o repórter Pingo de Coalhada me perguntou sobre o jogo. Eu falava como um jogador profissional cuspia a cada três palavras e disse que iria levantar a cabeça e sair com um resultado positivo. Numa mesinha ao lado destinado à crônica esportiva. O comentarista Wellington Golias, o diabinho, de rabinho, chifrinho e tudo nos olhava com desdém, e fazia um efusivo comentário: "passes perfeitos e sincronizados" "devoluções precisas" por fim arrematou: “a parede foi a maior figura em campo em campo”. O segundo tempo prosseguiu com um festival de micos e quixotadas. Ainda bem que acordei antes do fim do jogo.

Natal em Alagadiço

Era uma grande alegria quando via papai tirar o jeep da garagem e passar pela praça buzinando. Largava a bricadeira rotineira e feliz da vida ia com ele para a festa de natal de Alagadiço. Um povoado da cidade de Frei Paulo que fica a cerca de 7 km da sede do município. À noite íamos vagarosamente pela estrada esburacada e escura na direção de Carira, mais um pouco depois da ponte do Rio Salgado, avistávamos um mata-burro era a entrada para Alagadiço, uma estradinha estreita, esburacada e cheia de ladeiras, mais na frente outro mata-burro quando o carro cruzava e vibrava, era um sinal que já estávamos chegando. Naquele tempo, não havia luz elétrica, Alagadiço se resumia a uma grande praça cheia de casas simples e no centro uma igrejinha branca onde a comemoração ganhava um caráter cultural e religioso. Em todas as partes do mundo o natal é comemorado no dia 25 de dezembro, mas em Alagadiço contrariando o calendário cristão, a festa acontecia no início de janeiro. A noite, essa praça ficava totalmente lotada de gente, vinda de outras cidades, Pinhão, Pedra Mole, Ribeirólis, Carira, Itabaiana e de propriedades rurais da redondeza. Muitos matutos com seus melhores trajes passeavam e assistiam à comemoração do natal. Muitas barracas armadas vendiam o tradicional arroz com galinha, era galinha de capoeira de verdade, com um tempero caseiro feito com dedicação pelas senhoras tarimbadas no assunto. Grandes caldeirões com guloseimas diversas, arroz doce, mugunzá e outras iguarias. Os bares ficavam lotados de gente bebendo e comendo seus tira-gostos. Na estrada pouco antes de chegar à praça havia um grande bar onde um animado forró atraia muita gente e a diversão rolava até amanhecer o dia. Parque com barcas e trivolovi e as bancas de jogos de cartela, e suas premiações de goiabada e sardinha, tudo iluminado com luz de candeeiro. Era muito divertido. As crianças brincavam na escuridão e os adultos aproveitavam para namorar no escurinho da festa. Todos gostavam e ficavam muito felizes. Olhava para o céu estrelado e dava para ver até as nebulosas, como dizia Sergio de Zé Pequeno: “No escuro as intenções são mais claras” Meu pai, Seu Bastos não perdia essa festa, por uma razão particular, todo natal em Alagadiço, uma banda de pífanos circulava na praça e os moradores acompanhavam dançando e fazendo preces. O cortejo circulava pela festa e depois adentrava a igreja sob o toque das zabumbas e dos afinados pífanos. Tocados por experientes velhinhos, que a todo instante, rodopiavam em perfeita sincronia, com suas coloridíssimas indumentárias folclóricas. Essa tradição, atraia muitos visitantes. Gente do Catuabo, Serras Preta, Serra Redonda, Mocambo e principalmente de Frei Paulo, iam para Alagadiço nesse dia tão somente para assistir a esse espetáculo cultural de encher os olhos. O natal de Alagadiço, sempre foi o mais animados da região, e nesse dia, era certa a presença do prefeito municipal e dos vereadores participando da procissão e assistindo a celebração da santa missa. Papai tinha muitos amigos em Alagadiço, e após a missa, sentava nas portas onde havia muitas cadeiras e entravam pela madrugada em conversas divertidíssimas, brincando na praça até altas horas eu só ouvia as gargalhadas. Era muito bom o natal de Alagadiço na minha infância. Já participei de muitos naquele lugar marcado por incríveis histórias do cangaço.