domingo, 22 de abril de 2012

Um magistrado apaixonado por educação

Se existe um nome, que merece todo o reconhecimento do povo freipaulistano, este o do juiz de direito Thiers Gonçalves de Santana, não só pelos valorosos serviços prestados a nossa comunidade, mas, sobretudo pela sua abnegação no sentido de valorizar a educação em Frei Paulo. Thiers amou esse torrão e nos anos que comandou a comarca de Frei Paulo, deixou um legado de obras e exemplos humanitários na sua ilibada atuação judicial. Ele realmente enobreceu o Poder Judiciário tomando posições firmes numa época que os coronéis queriam interferir nas decisões, agiu com imparcialidade e coragem fazendo justiça para nossa gente. Assim que chegou a Frei Paulo, não havia nem sequer um local para exercer sua função, então alugou uma casa ali na ladeira do Tanque dos Cavalos e passou a funcionar como fórum improvisado. Nos dias da semana não ficava ocioso, e por sua sede de compartilhar o saber, dava aulas como voluntário no Educandário Imaculada Conceição e no Ginásio Cônego José Antonio Leal Madeira. Aliás, ele que foi o primeiro presidente da CNEG – Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, tendo permanecido à frente desse movimento cívico por cerca de dez anos, tempo em que fundou, no interior do Estado, cerca de vinte ginásios públicos, abrindo extraordinária oportunidade à juventude do interior sergipano, que não possuía condições econômicas de se deslocar à Capital do Estado para promover seus estudos. Vendo a estrutura precária das instalações da casa da justiça, Dr. Thiers foi ao prefeito e conseguiu a doação de um terreno amplo ali na travessa que liga a Praça da Matriz à Praça Capitão João Tavares e naquele local iniciou as obras do fórum da cidade de Frei Paulo. Uma obra de fôlego para a época. Usou seu prestígio e com o governador Lourival Batista conseguiu os recursos necessários para a execução de tão importante obra. Foram anos de luta até ficar pronto, então quiseram homenageá-lo, colocando naquele fórum o seu nome, mas ele era uma pessoa que trabalhava nos bastidores e não aceitou a homenagem. Foi ele também que construiu o fórum de Itabaianinha. Então quiseram colocar o nome do governador, mas ele também não aceitou, preferiu prestigiar o judiciário determinando o nome do primeiro juiz de Frei Paulo, Dr. Flávio da Rosa Melo. Era um homem justo, de decisão, que nunca aceitava imposições, por isso muitas vezes contrariou os poderosos coronéis, que queriam se impor pela força e pelo prestígio político. Era por essa postura que era muito admirado pelos homens de bem de nossa cidade. Antes da construção desse bem estruturado fórum, Dr. Thieres despachava numa casa alugada. Naquela época, para que os nordestinos, em plena seca, abandonassem seu torrão, era necessário uma ordem judicial. Portanto era comum, encontrar o meretíssimo na praça da matriz inspecionando caminhões, e assistindo a cena triste das famílias deixando a terra natal, para se aventurar no sul do país. Ali ele presenciava mulheres, meninos e homens aflitos esperando tão somente sua canetada, para seguir na imprevisível e sofrida viagem para São Paulo. Aquilo que a música ”A triste partida” retrata tão bem na voz do inesquecível Luis Gonzaga: “Setembro passou Outubro e novembro Já estamos em dezembro Meu Deus que há de nós. Assim fala o pobre do seco Nordeste Com medo da peste da fome feroz” Era aos prantos que Dr. Thieres assinava a ordem autorizando a triste partida, muitas vezes as suas lágrimas chancelavam aquela triste realidade da pobre gente sertaneja. Um homem de senso humanitário e de nobreza de caráter, raríssimo nos dias de hoje. Assim era o Dr. Thiers. Em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à justiça de Sergipe, o desembargador Cláudio Dinart Déda, determinou que o fórum da cidade de Cedro de São João, levasse o seu nome, um reconhecimento póstumo a uma personalidade que venceu na vida pelo estudo e esforço próprio, vindo de origem humilde. Muito bem falou sobre ele, o seu filho, o promotor Jorge Murilo Seixas de Santana: “O nome do homenageado, ora registrado perenemente pelo Tribunal Regional Eleitoral na fachada deste Fórum serve de registro para as gerações vindouras como exemplo de homem público, cidadão, pai e amigo, que, apesar de sua origem humilde, venceu as vicissitudes da vida, conseguindo galgar altos postos na Justiça Sergipana, pela via do estudo e esforço pessoais.” Portanto, parafraseando feliz expressão do renomado processualista José Carlos Barbosa Moreira, em rompante lírico, pode-se afirmar que Thiers Gonçalves de Santana, “antes de abrir os códigos, já tinha impressas na sua alma outras marcas; já havia afinado o seu diapasão interior pelo som de fontes frescas, de sinos longínquos e do sopro da vida, incorporado à palheta espiritual todos os entretons da natureza e, enfim, aprendido que a riqueza da realidade sempre supera a rigidez dos conceitos”, humanizando-os, em sua profícua atividade profissional. A cidade de Frei Paulo e sua gente se orgulham de homens dignos como ele, que contribuíram de forma decisiva para a educação e a justiça em nossa cidade. Thiers deixou um exemplo maravilhoso para as futuras gerações.

sábado, 21 de abril de 2012

Um choque cultural

Poucos acreditavam que iriam asfaltar a estrada que corta Frei Paulo, a conhecida BR 235, mas um dia, o que era apenas um sonho começou a virar realidade. A cidade sofreu um choque cultural sem precedentes. De uma hora para outra fora invadida por homens e máquinas causando uma mudança radical na vida dos freipaulistanos. O escritório da construtora Odebrecht ficava bem atrás do cemitério. Com a chegada de centenas de novos moradores vindos de diferentes pontos do Brasil, instalou-se uma onda de euforia e deslumbramento para o comércio local que passou a faturar mais. Por outro lado as moças da cidade passaram a se apaixonar pelos visitantes. Muitas delas, cairam na lábia e perderam sua virgindade, com peões corredores de trecho que sumiram, do mesmo jeito que apareram na pequena e bucólica província. Foi uma total subversão dos valores culturais locais. Se por um lado foi ruim, por outro foi muito bom, alguns dos peões estabeleceram-se de forma definitiva na cidade. Tudo começou com a chegada de uma subsidiária chamada Comprol, que era de Recife e fazia os trabalhos de topografia. A turma ficou em uma república bem em frente a minha casa na Rua Floriano Peixoto, antigo Beco do Talho. Na casa que pertencia a Ana e Tonho de Dalila, o casal naquele período haviam se mudado para Aracaju. A casa sítio de Seu Luizinho na Avenida José da Cunha, também fora alugada para acomodar os trabalhadores. Foi um tempo muito interessante, e eu me tornei um piolho de cabine, passava o dia nas caçambas pra cima e pra baixo, correndo trechos da estrada, assisti do começo ao fim, e fiz muitas amizades com os nossos visitantes. Havia os que pilotavam tratores muito grandes, conhecidos como Moto Scraper, responsáveis pela terraplenagem, eram gigantes empurrados pelos enormes tratores D-8 Caterpillar. Passei a entender de estradas como ninguém. Por um bom tempo, alimentei a esperança de me tornar engenheiro civil e viver a vida como aqueles peões, construindo estradas por esse Brasil afora. Mas quando descobri que engenharia estava intrinsecamente ligada à matemática, desisti. Lembro de cada um dos amigos da época: Expedito, Honorato, Paulo Mecânico, Luis Caçambeiro, Zé Priquitinho, apontador, João Come Longe, Rasga Magra, Jorge Bafafá, Costinha, Coutinho irmão de Cisso, Job, Zé Costa e Belos Olhos. Este usava um olho azul postiço que quando caia na lama ele sempre dava um jeito de recolocar. Havia também o casal Guerrinha e Vandica, ela era uma velha índia, bem magra. Já eram conhecidos por fornecer alimentação aos trabalhadores em outras obras por esse Brasil afora. Eles montaram um restaurante para servir a peãozada vizinho à casa paroquial. Guerrinha morreu em Frei Paulo, ele fumava muito e isso o levou para a cova. Vi seu atestado de óbito e a causa mortis apontava: insuficiência respiratória. Naquele tempo, eu também fumava, era comum entre os garotos de minha geração fumar cigarro, não se tinha conhecimento dos malefícios do cigarro e as propagandas na televisão eram um apelo quase irresistível. Foi um tempo de prosperidade para a economia de Frei Paulo, pois a construção da estrada gerou muitos empregos para os freipaulistanos e incrementou as vendas no comércio local. Mas muitos perderam a vida nos inevitáveis acidentes que aconteciam envolvendo máquinas e caminhões, foram muitos. Anos se passaram e a estrada foi concluída, e toda aquela gente estranha foi embora, cada um tomou seu rumo. A rotina foi retomada aos poucos, quase sem ninguém perceber. De obras faraônicas como aquela, ninguém mais na cidade ouviu falar. A calmaria foi aos poucos sendo restabelecida, com Bigodão da Energipe, sendo responsável pelo fornecimento de energia elétrica e Zé Vermelho da Deso, pelo abastecimento de água da cidade. Aos poucos tudo voltou à sua normalidade.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O homem que ao chão se deu

Quando mamãe tinha aquela bodega na feira, eu só gostava de trabalhar servindo cachaça, toda hora chegava uma mulher sertaneja e pedia "zinebra". Era uma garrafa esverdeada com o nome "Genebra Gato", a Guinchard era a mais cara. Eu servia, e adorava ver a careta que elas faziam. Uma careta que eu gostava muito, era a de uma moradora da Fazenda de Batista Félix no Coité, que quando ela queria pagar eu respondia "Né nada não, quer mais uma?" O nome dela era Maria e sua filha Genivalda, chegou a morar lá em casa, ajudando D. Helena nos afazeres domésticos. Um dia Maria saiu bêbada de lá. Ela era uma mulher acostumada com o duro trabalho nas roças, acabamos ficando bons amigos e por isso muitas vezes eu passava finais de semana em sua casinha de taipa na fazenda. Quando Seu Batista passava, dirigindo o seu jeep velho, sem capota, parava e era uma festa para aquela gente humilde. Ele dava dinheiro para os empregados. Pelego um deles tomava muita cachaça, e Batista reverberava com um jeito engraçado prendendo os lábios e dizia ”Ô fidapeste qui bebe” E dava a ele uma cédula verdinha de um cruzeiro, e Pelego, já inchadinho, saia na maior alegria para comprar sua caninha. A sede dessa fazenda, que possuía uma casa muito boa, ao seu redor circulavam porcos, dentre eles um barrão gigantesco, nunca vi um daquele tamanho, pesava quase uma tonelada. Ele só ficava deitado na sombra de um juazeiro, foi ali que pisei em um espinho que até hoje quando lembro tenho arrepios. Era muito boa a vida nas fazenda da Grota Funda,do Coité e varias outras, a terra árida lembrava cenários de filmes de faroeste. Seu Batista, era dono de várias outras fazendas e todos os dias percorria todas elas, nas madrugadas, acompanhava a ordenha do seu imenso rebanho.Algumas vezes acordei de madrugada para acompanha-lo nesse trabalho. E era muito gado que ele possuia e terra a perder de vista. Às 5 da tarde todo o rebanho se reunia na manga das fazendas, aí sim, se via um espetáculo de rara beleza. Mas, algumas vezes acordei de madrugada para ver os vaqueiros tirando leite. Bebi leite quentinho tirado direto do peito da vaca , espumando, era delicioso. E aquele cheiro de curral e o mugido das vacas e dos bezerros, que saudade daqueles momentos. Seu Batista era só sorriso, quando o dia amanhecia, os seus caminhões partiam para Aracaju e ele vestido com roupas simples, mas muito alinhado, com seu elegante chapeu, seguia para a rua, para prosear com os amigos . Ele gostava de brincar comigo e com outros garotos da cidade. Mas suas brincadeiras eram muito pesadas, por isso adorava sua companhia, ele sempre sorridente estendia a mão para um aperto, porém apertava pra valer nossa mão , em tempo de quebrar os ossinhos de nossas mãozinhas tão frágeis. Tudo que ele fazia era engraçado para todos, isso porque ele era considerado o homem mais rico da cidade. Apesar disso, era um exemplo de simplicidade, dava-se ao diálogo com todos e nunca gostou de ostentação. Por essa postura popular, foi eleito prefeito de Frei Paulo por sinal muito bem votado. Apesar do poder que detinha, jamais foi adepto de práticas violentas, muito pelo contrário era um homem pacificador. Pouco ligou para o cargo, na verdade o seu genro Soares, casado com Mércia, era que administrava a cidade. Por ser muito popular e querido principalmente pelos mais humildes , Soares fez carreira na política vindo a se tornar uma das maiores lideranças políticas da cidade. Foi prefeito eleito por duas vezes. Batista era um homem honesto e muito dedicado ao trabalho, por isso enriqueceu, mas levava um vida verdadeiramente simples ao lado de sua dedicada esposa D. Altina,ela era uma guerreira , sempre apoiando o marido e cuidando com muito amor dos seus filhos. Sergio Dantas, o caçula era muito levado e de vez em quando Seu Batista dava-lhe boas regulagens. Um dia assisti a uma delas: -Você abusou moço? -Abusei. -Como é que se diz moço? -Abusei sim senhor. Quando Antonio Dantas Nunes faleceu, em trágico acidente , vi Seu Batista aos prantos, amava tanto aquele filho, que por anos e anos dava para perceber o seu semblante abatido e sua profunda melancolia. Bem que ele tentava disfarçar, empenhando-se cada vez mais no trabalho. Depois outra tragédia, a morte também prematura da filha Ana Dantas. Essa moça, era muito ativa na cidade , foi ela quem fundou a Boate Spring Flawers, e era uma pessoa muito alegre e comunicativa, querida na cidade. Batista Félix deixou um exemplo de trabalho e dignidade, e com seu jeito simples, tornou-se um dos homens mais importantes de sua época, graças ao seu tirocínio, foi que Frei Paulo ostentou o título de maior bacia leiteira do estado e também se destacou na produção algodoeira. Batista foi o homem que ao chão se deu, uma peça fundamental no desenvolvimento da economia do município.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Uma mulher virtuosa, um sanfoneiro beberrão


Quando vovó Mizinha mudou-se para a Av. José da Cunha ela já estava com a vida arrumada. Mas sofreu muito na longa estrada, viúva logo cedo e cheia de filhos para criar. Ela casou-se com Tonho Carpina, quando eu nasci já fazia muito tempo de sua morte, mas suas histórias se perpetuaram. Era um tipo alto, falastrão que trabalhava como ajudante de carpinteiro do seu pai Seu Chico. Um dia tascou um beijo em Mizinha que estava na janela e era apenas uma adolescente cheia de sonhos. A partir daí, acendeu nela a chama do amor. Tonho Carpina era também músico e tocava hamônica, uma espécie de sanfona. Com esse instrumento que ele mesmo batizou de “mônquina” animava as festanças da região.
Um dia ele chegou em casa todo rasgado e ofegante, teve um quebra pau no forró e resolveram dar uma surra no sanfoneiro, ele correu para o meio do mato no escuro enquanto era perseguido pelos brigões, a sanfona de vez em quando emitia sons e denunciava onde ele estava escondido. “Mizinha esconda a mônquina, pois o pau quebrou e a polícia está atrás dos baderneiros”
Mas com o vício da bebida, chegava sempre em casa aos tombos, sem dinheiro e bêbado. Minha vó sofreu muito com ele. Um dia levou Mizinha para morar na Serra das Campinas em um lugar distante e ermo, minha mãe D. Helena nasceu lá naquele lugar desolado numa situação de absoluta penúria. Quantas vezes vovó mandou o menino no quintal ver se a galinha botou ovo para misturar com farinha e alimentar os seis filhos pequenos. Lá ele pouco aparecia. Vivia enrabichado atrás de uma rapariga da Serra Redonda.
Sá Benigna e Francisco um dia passou um corretivo no bregueiro. “Que home é esse que não liga pros fio e pra muié? Você tá errado”. As crianças às vezes se alimentavam somente de farinha seca no almoço. Toda vez que leio essa história, me emociono e choro e passo a cada dia, a admirar cada vez mais a pessoa sensacional que foi minha avó Mizinha. É por isso, mirando no seu exemplo de mulher guerreira que encontro razão para cada dia lutar por meus ideais.
Quando eu era garoto ficava impressionado como sua casa na avenida era tão arrumada, tudo limpinho e organizado. Vivia feliz naquela casa, às voltas com suas coleções de figurinha e demostrando seu interesse por política, emitindo opinião sobre os fatos, sempre bem informada. Quem a via assim, não sabe da missa nem a metade. Não mensura o que ela passou nessa vida. Ela morreu aos 104 anos de idade e deixou muito amor plantado nessa longa trajetória. Amor aos filhos e netos aos amigos, eles sempre a admiraram pela sua força, entusiasmo e coragem.
Depois da regulagem que tomou Tonho Carpina a trouxe para morar em um sítio velho na Av. José da Cunha, ali passou a assumir a família, criou uma bebida com o nome de “amorosa" e foi vender na feira de Frei Paulo. Era uma garapa colorida que fez sucesso na época. Assim ela teve uma trégua de quatro anos com o marido ajudando a criar a grande prole, até que ele pegou uma tuberculose que o mandou para a terra de pé junto. Voltou o sofrimento. Um dia o dono do sítio teve que vender a propriedade, ela ficou sem ter para onde ir, graças ao irmão Teixeirinha foi mora num galpão que ele possuía no seu sítio, perto da casa dele. Mas Teixeirinha muito bruto queria bater e brigar com seus filhos, por isso ela sofria muito. Com muito esforço conseguiu comprar uma casa, mas sua situação era de extrema pobreza. Ela lavava roupas na casa do chefe do DNOCS, Dr. Reis que naquele tempo estava construindo uma estrada até Jeremoabo. O escritório ficava em Frei Paulo. Um dia D. Lurdes esposa do Dr. Reis, foi até a casa dela e ficou impressionada com a situação que presenciou: na sala duas redes e uma esteira, no corredor outra rede com uma menina e na sala de jantar mais duas redes. Era tudo que havia na casa. Emocionada ela disse: Mizinha vou lhe ajudar".
Arrumou um emprego no DNOCS para Edgar, seu filho mais velho e ele todos os meses entregava dois salários a mãe, e assim ajudou a criar os irmãos, Bosco o mais novo tinha apenas dois anos nessa época. Essa senhora também conseguiu que vovó lavasse a roupa na casa de outros diretores do Dnocs, assim ela conseguiu trabalhando duro, criar os filhos dando educação e o melhor de si a cada um deles. Depois ainda criou com muito amor e carinho e especial dedicação a sua neta Selma, minha irmã. Mulheres virtuosas como D. Mizinha são raras, raríssimas, acho que não existem mais nos dias de hoje.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A terapia de Zé Barbeiro


A barbearia de Zé Barbeiro era freqüentada por muitos freipaulistanos. Ele era um homem que tinha paixão pelas caçadas e pescarias e tinha também como hobby, criar passarinhos. No seu local de trabalho, um salão não muito grande na Rua Itabaiana, era cheio de gaiolas penduradas no telhado. Era viuvinha, canário da terra, cabeça, chupa capim, sofrer e um imponente passo preto. Ele cortava o cabelos, fazia a barba e entabulava uma conversa empolgante com o cliente. Muitos procuravam Zé Barbeiro ainda com o cabelo curto, somente para ter o pretexto de conversar com ele, enquanto ouvia a sinfonia dos pássaros. Era pura terapia, um momento de relaxamento. Lembro da cadeira, do envelhecido espelho e até da fragrância dos cremes de barbear. Qualquer pausa lá estava ele na calçada às voltas com suas gaiolas soprando o alpiste, limpando e trocando a água.
Ostentava uma cabeleira branca e que se projetava ondulada para o alto da cabeça, o seus rosto tinha a maior coleção de rugas que já se viu. Apesar da idade avançada, era muito ativo e sua diversão favorita era pescar traíras no Tanque de Beber. Ele ficava em silêncio absoluto, concentrado na vara de bambu subindo e descendo a isca vagarosamente. Costumava usar como isca, uma piaba cuidadosamente escolhida entre as pescadas com o gué. Era como se chamava o minúsculo anzol, onde com bolinhas de pão se pescava piabas. Também Zé Barbeiro às vezes rumava em direção ao açude em longas caminhadas e sempre voltava com seu peixinho na capanga.
Meu pai me levava sempre para ele cortar meus cabelos, ele me colocava sobre uma velha maleta para obter a altura ideal, então ele quase raspava minha cabeça, deixava só aquele pequeno topete de soldado raso. Com uma máquina manual que acionava com os dedos, de vez em quando a máquina mordia o couro cabeludo e as lágrimas desciam. Mas eu chorava era inconformado com aquele corte, eu detestava pra falar a verdade, mesmo porque a moda eram os cabelos longos. Ele sempre resmungava reclamando de meu silêncio e de minha cara amarrada. As lágrimas deciam em profusão quando olhava para o chão e via minha linda cabeleira negra e brilhante indo para o lixo.
Como de médico e louco cada um tem um pouco, Zé Barbeiro, não se fazia de rogado e também aplicava injeções, havia sobre a base de mármore uma pequena caixa metálica com seringas de vidro e agulhas. A própria caixa virava uma espécie de estufa quando aquecida com álcool. De vez em quando, alguém se aventurava a receber suas injeções. Nunca recebeu instrução para tais procedimentos, fazia isso como um prático. Isso nos dias de hoje seria inaceitável.

Cada caçada , cada pescaria era uma nova conversa na cadeira terapêutica de sua barbearia. Era um local freqüentado por muita gente, pois ali mantinha um tabuleiro de damas onde os freqüentadores após os cuidados com a beleza, se deleitavam em acirradas disputas com exímios jogadores. Não havia apostas era só brincadeira, a dama ficava o dia inteiro à disposição dos clientes da barbearia. Ao redor uma platéia de torcedores tinha que assistir a todas as jogadas sem dar palpite. Ai daquele que se metesse na disputa, Zé Barbeiro ficava furioso e com sua voz grave chamava a atenção do peru. Se esse insistisse ele expulsava de seu estabelecimento. Quando alguém tomava um porco a mangação era geral. Assim o tempo passava sem ninguém se dar conta.
Outra coisa que ele gostava era de caçar nhambú e com sua espingarda de feixe, percorrer as matas ao redor do açude Buri e quando dava sorte trazia algumas aves para o almoço da família. Ele assim como muitos em Frei Paulo gostava das caçadas, por isso acabaram dizimando as aves. Outro dia o assisti dialogando eloqüente com seu costumeiro sorriso. Enquanto fazia a barba de Seu Gumercindo, começou a falar sobre a escassez das aves em nossa região. E aquele senhor falava que na sua época, havia fartura de nhambus, perdizes, nhampupés e rolinhas nem se fala. Zé Barbeiro ouviu atentamente o comentário enquanto passava a navalha no rosto do homem, dava até para escutar o barulho da lâmina da navalha escorregando na sua barba cerrada. Zé Barbeiro suspirou e fez esse comentário: “Deu uma murrinha e acabou tudo, boto pó?”

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cidalha, Matetê e Batatinha...


Cidalha era um homem com trejeitos afeminados, mas que conservava os hábitos rudes dos homens do campo. Morava na cidade, mas não abria mão da labuta diária na roça onde cultivava feijão, milho e algodão. Vestia-se com suas roupas simples e usava um pequeno chapéu de couro na cabeça. A voz era fina e ele por qualquer motivo fazia estardalhaço. Mas Cidalha, que passava o dia inteiro na lida, ao retornar para sua casa que ficava no beco da Bodega de Zé Fuliá, vinha quase que rastejando. Como um castigo, a partir das 5 da tarde, ele era acometido de uma terrível dor nas costas, que o obrigava a andar daquele jeito, curvado, quase ralando as narinas nos paralelepípedos da Rua de Itabaiana.
Aos sábados era visto na feira com um caldeirão na mão comprando carne e proseando com os feirantes. Era uma figura festejadíssima, muito alegre, onde quer que chegasse. Mas era uma espoleta. Bastava triscar, ele perdia as estribeiras e por horas reverberava, rodopiava, dava um show. Os moleques por isso, não o deixavam em paz. Como ele, haviam outros que eram alvo da moçada, uma senhora bem velhinha que morava na Rua de Itabaiana também tinha o costume de esbravejar quando seu apelido era pronunciado: “Matetê”. Ela ficava transtornada e com o cacetinho que usava para se locomover, já bem velhinha, corria e tentava bater nos velozes moleques. Estes sempre ávidos por perversidades com os mais vehos. Raça ruim essa!
Frei Paulo era um palco ilustrado, onde sempre desfilou figuras antológicas, dentre elas faço questão de destacar Batatinha, o curador de cobras. Era uma figura mística, baixinho, manhoso, viciado nas cartas freqüentava o reservado do bar de Zé Pequeno e o dinheiro que ganhava dos fazendeiros com seu bizarro ganha pão, gastava no pôquer que entrava pelas madrugadas. Ele passava dias e dias jogando e não saia nem para urinar. Tinha uma garrafinha onde ali mesmo na mesa atendia suas necessidades fisiológicas.
Ele chegava a Frei Paulo e passava longas temporadas hospedado na pensão de D. Zefa. Descia dos caminhões pau de arara e cruzava a cidade com uma velha mala de couro onde transportava dezenas de serpentes. Outro dia o flagrei chorando na praça com uma cobra morta na mão, perguntei o que era, e ele com os olhos rasos d’água começou a falar:
- Meu filho, hoje é o dia mais triste de minha vida. Perdi Florisbela. Essa cobra era tudo pra mim, onde eu vou achar outra “maia de sapo” sabida igual a ela? Essa cobra já me deu o dinheiro de comprar uma fazenda.
Chorando copiosamente enterrava a serpente na areia debaixo do pé de fícus. Depois soltou um bocado de cobras ali mesmo e elas tomaram direções diferentes. Em instantes ele começou a emitir com a boca assovios e ruídos esquisitos e as serpentes começaram a voltar todas para a velha mala, fiquei impressionado com aquilo. Ele era um exímio adestrador de cobras e tinha como profissão, curar pastos. Os fazendeiros que tinham reses mortas por picadas de cobra contratavam seus serviços; era na verdade um golpe nos coitados.
Ele chegava ao pasto, soltava suas cobras adestradas, depois de rezar, emitia sons esquisitos e as serpentes vinham para sua mala. Depois cobrava pelos serviços informando ao fazendeiro que seu rebanho estava a salvo, pois, dali havia retirado todas as cobras venenosas de sua fazenda. E eram muitas. Dizem que ele retirava o veneno das serpentes e as condicionava. Essa era sua profissão, curador de cobra. O unico que conheci até hoje. Ele percorria diversas cidades até mesmo de Alagoas, Pernambuco e da Bahia. Tempos depois, chegou à cidade a notícia de sua morte. Batatinha havia morrido já velhinho. Teria sido picado por uma jararacuçu que ele começou a criar.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O iconoclasta do sertão


Rosendo de Catita talvez tenha sido o tipo mais folclórico de Frei Paulo. Eu e Sergio de Zé Pequeno fomos visitá-lo na Chã, quando ele repousava em seu leito de morte. Morte essa que ele conseguiu enganar por muitas décadas, apesar da vida decrépta que sempre levou. Ele era uma figura tosca que perambulava pelas ruas, mas era cheio de filosofias e conversas que deixavam os populares de queixo caído. Vestia-se com roupas esquisitas, e sempre maltrapilho contradizia a tudo que poderia se considerar uma vida normal. Cansei de ver ele na avenida, no tempo de chuva bebendo água nas poças, aquela água amarelada do barro do sertão que deixava sua longa barba branca com aquela coloração amarelada. Dormia em qualquer lugar, na sombra das arvores, no oitão da igreja onde soprava um vento frio dos pólos. Ele apesar dessa vida louca, tinha uma mulher, era conhecida por Catita, dela não tenho qualquer lembrança.
Seu nome era José Rosendo dos Santos, até hoje ninguém sabe exatamente sua origem, mas no passado ele costumava chegar em Frei Paulo montado em sua bonita besta pedrez. Era uma besta esquipadora, é tanto que virou bordão na cidade, Quando se queria fazer chacota com alguém muito apressado, dizia-se: “Você esquipa que só a besta de Rosendo”
Certo dia ele chegou para as pessoas e disse que seu nome a partir de então, seria Rosendo Lobo e não dos Santos, numa referência aos lobos guarás que freqüentavam os canaviais. Ele além de beber desbragadamente, gostava de gastar seu tempo fazendo desconcertantes apologias da cana. O alambique de seu Antônio de Germino era roteiro certo de suas andanças. Quando alguém dava pitaco ele prontamente retrucava: “Bebo o dinheiro é meu e não é da conta de ninguém” ou ainda recitava nos becos e vielas, quadrinhas do tipo; “Bebe o rico na fazenda pra não dá o que saber, bebe o pobre no trabalho, escondido pra ninguém ver. Em qualquer ocasião, pra quem tem educação beber não é defeito não”
Aonde ele chegava tinha uma história interessante e platéia é o que não faltava para ouvir suas lorotas, por sinal sempre criativas e originais. Outro dia narrou ele:
“Eu vinha de Ribeirópolis e quando cheguei na Serra Redonda, apareceu um homem de fino trato, todo elegante e sorridente. Então lhe perguntei: Quem é vosmecê?
- Meu nome é Satanás.
-Satanás, o fute, Belzebu?
-Ele mesmo em pessoa.
-E o que faz você por aqui?
Ah, eu venho aqui na terra para ajudar as pessoas, estou sempre à disposição do povo, ajudando as pessoas, não sou aquilo que pensam de mim.
-Como? Não entendi.
-Por exemplo, agora você quer ir pra Frei Paulo né? Pois suba na minha cacunda e deixe comigo.
Meio desconfiado subi na cacunda do bicho e ele imediatamente começou a voar, vi que já estava longe da cidade e pedir para descer, o bicho começou a rodar e nada de me soltar, quando ele ia passando perto do cruzeiro da igreja eu disse me deixe perto da cruz. Quando falei a palavra cruz ele tomou um susto e me largou no pé do cruzeiro, foi a minha sorte. Se alguém não acredita no que digo, pergunte ao finado Zé Porta Rasa” O livro de minha avó D. Mizinha, com riqueza de detalhes, conta essa e várias outras historias protagonizadas por Rosendo. Um dia ele estava mijando no alpendre de uma casa e Dona Anáide ao se deparar com aquela cena gritou: “Vai mijar na sua casa seu filho de uma égua” e ele respondeu “Coincidência... Por falar em égua me lembrei de sua mãe.” Quando Antônio de Germino foi tomar satisfação ele tirou de letra, alegando que não se lembrava de nada daquilo. “Meu lema é não discutir, principalmente porque das cachaças que já bebi a melhor é a do alambique Ibiracema”.
Rosendo era um sujeito avesso ao trabalho, nunca trabalhou na vida , segundo contam os mais velhos, alguns chegavam para ele e perguntavam: Rosendo você não tem vontade de trabalhar?
-Às vezes me dá uma vontade louca de trabalhar, então eu procuro um canto e fico quietinho esperando a vontade passar. Certa feita, um avião teco teco entrou em pane e fez um pouso forçado na avenida. Ao se deparar com a aeronave Rosendo teve uma atitude intempestiva, ninguém conseguiu conter sua fúria, e com uma foice quase que destruiu completamente a aeronave, fez um grande estrago no avião, causando a seu proprietário um grande prejuízo. Era um sujeito muito diferente, um iconoclasta das plagas sertanejas, misteriosamente viveu por mais de um século, era um tipo inesquecível que tive o privilégio de ser contemporâneo.