domingo, 15 de abril de 2012

Cuidado com o tarado


Quando eu tinha 12 anos, A cidade estava em polvorosa. O medo tomava conta de muitos, inclusive de mim que tremia só em pensar na possibilidade de ficar cara a cara com o monstro que aterrorizava a cidade. Em todo canto que eu chegava ouvia uma nova estória relatando mais um ataque. “Dessa vez foi na casa de fulana”. O medo passou a fazer parte da rotina principalmente das mulheres. Ninguém queria ficar diante do tarado. Ele, ou eles agiam de preferência à noite, mas ouvi inúmeros relatos de ataques matutinos e vespertinos. Não sabia eu que o tal monstro era um libertino que estava tão somente satisfazendo a luxúria, a libertinagem e a concupiscência de mulheres pecaminosas. Segredos de alcova que abusava de minha inocência.
Um dia eu andava pela avenida e vi um tumulto na casa de Mané, era por volta de dez da manhã e sua esposa estava desmaiada no seu quarto. Sofrera um ataque do tarado. Mané ao tomar conhecimento do ocorrido chegou em casa apressado e com seu chapéu preto que tinha uma catinga miserável, colocou sobre o rosto da esposa para que esta recobrasse os sentidos após a libidinosa investida do maldito. Cada um tem seu jeito de curar o efeito da perniciosa ação do tarado. Esse logo deu resultado.
Ela levantou-se da cama lânguida com uma cara de santa pudica, para não usar uma palavra que com certeza o leitor já imaginou. “Eu estava no quintal estendendo a roupa quando aquele homem se aproximou fumando um cigarro estranho, quando senti aquele cheiro fiquei ariada e não vi mais nada” Mané encafifado, coçou vagarosamente a testa.
Mulheres e homens da vizinhança além de acudirem à coitada, prestaram solidariedade ao marido. Essa cena com o passar dos dias foram se tornando corriqueiras, causando medo nas mulheres. Vez por outra, se ouvia dos quintais gemidos e em seguidas gritos “Socorro oi o tarado” Era uma epidemia, até hoje ninguém conseguiu pegar o tal tarado, depois fiquei sabendo que eram muitos tarados atacando até mesmo em suas alcovas, mocinhas virgens e até distintas senhoras casadas da comunidade. Mereceu até palavras do padre no sermão. O delegado imprimia diligências infrutíferas. Algumas coroas balzaquianas quando gritavam por socorro , torciam o nariz e as coitadas eram motivo de galhofa.
Uma conhecida moça da cidade com medo do tarado, pediu a minha mãe para que eu fosse dormir com ela na sua casa, eu fui durante várias noites, seus pais estavam viajando e ela com medo me pediu esse favor. Um dia no meio da madrugada ela me acordou assustada. “O tarado está forçando a porta do quintal” Apesar do medo que tinha desse monstro fui até lá e vi com meus próprios olhos a porta sendo forçada. Fiquei apavorado e sai correndo para a rua chamei o vizinho e este veio com um revolver, abriu a porta e efetuou alguns disparos em direção ao escuro.
Mais uma vez o tarado conseguiu escapar. Por isso não parou de agir, esse foi descoberto todos viram ele pulando o muro da Rua do Cinema. Dias depois surgiu um comentário que a moça mantinha um caso amoroso com esse suposto tarado. Nem mesmo uma respeitada professora da cidade foi poupada pelas investidas do tarado e eram vários tarados agindo em horários e modos diferentes. Um dia conversando na praça com Cucuta, ele esclareceu para mim que essa estória de tarado era pura balela. O que havia na cidade era muita putaria, de mulheres safadas, gaieras, traindo seus maridos e inventando essa desculpa esfarrapada de tarado. Ainda bem, a partir daquele dia perdi o medo de tarado.

sábado, 14 de abril de 2012

Frei Paulo de chuteiras


Até parece que foi ontem. Eu era um menino de calças curtas, com oito anos de idade. Em 2010 completou quarenta anos. Meu Deus como o tempo voa. Estava na casa de D. Cacilda na Rua de Itabaiana e ela enquanto cantarolava uma cantiga de forró do “Crepúsculo Nordestino” costurava para mim uma bandeira do Brasil, ela cantava: “tengo lengo tengo lengo tengo” e a euforia já impregnava as ruas, todos contaminados por um patriotismo desmedido, fruto da campanha avassaladora de Brasil Grande pregada pela ditadura. Era véspera da última partida que decidiria a copa do México. Dias após a vitória, Clodoaldo desfilou nas ruas de Frei Paulo em carro aberto e foi saudado por uma multidão.
Naquele dia acordei cedo e vestido a caráter, de verde e amarelo sai empunhando minha bandeira cheio de orgulho. Na porta do bar de Zé Pequeno, logo cedo já havia uma concentração de técnicos discutindo a escalação do time, e que time. Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e claro Clodoaldo que por ironia do destino seria um filho da terra e um dos integrantes do elenco de ouro. Por lá Joãozito, Epitácio, Chicão, Cisso Pinguinho, Zé Totonho, Ranulfo, Soares, e o próprio Zé Pequeno já coordenava as apostas. Ninguém falava em derrota, em questão, somente de quanto seria o placar a favor do Brasil. Às dez horas da manhã o bar de Dário já estava lotado, nas mesas cheias de cerveja Brama, o clima era de puro otimismo. Por lá Djalma, Tonho de Batista, Selmo de Normando, Dedé de Mané Bomzinho e muitos outros, já comemoravam antecipadamente a vitória do Brasil. O placar não poderia seu melhor, Brasil 4 Itália 1.
Todos teciam comentários elogiosos ao técnico Zagalo, neste dia sai percorrendo os quatro cantos da cidade e aonde chegava a conversa que ouvia era só elogios ao Zagalo, ele foi o único a conquistar o título de campeão do mundo como jogador e como treinador. Naquele dia, fui a todos os locais onde os grupos se reuniam. Na bodega de minha mãe, D. Helena, na de Zé Siqueira e Seu Augusto, na de Seu Jozino, na de Salomão, no Bar de Zé Fuliá, ali um grupo já festejava a vitória com brindes de casca de pau. Outro grupo alegre se formava na bodega de Seu Horácio na Praça da Feira. Outro termômetro eram as barbearias, a de Zé Barbeiro, a de Bastião, a de Zezé e a de Mané Fozinho. Este decretava a vitória e completava ”É orde oficiá” A cidade respirava futebol.
Em 1970 poucas televisões existiam, essa foi a primeira copa do mundo transmitida por TV, mesmo assim em preto e branco, portanto a cena mais comum era ver os desportistas passarem com seus radinhos de pilha colados no ouvido, era uma atenção total aos comentários e a Rádio Globo era a líder de audiência naquele dia. Aonde se chegava só se ouvia o hino:
“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção. De repente é aquela corrente pra frente...”
Era uma avassaladora onda de patriotismo e amor aos nossos heróis, uma paixão jamais vista. Aquele era o time dos sonhos, na linha de frente, liderados por Pelé, no auge de sua carreira, que aos 29 anos, deixaria ao mundo um legado de jogadas geniais, os jogadores brasileiros trouxeram a taça Jules Rimet na Copa do Mundo de 1970, no México. A consagração do melhor futebol do mundo. A mascote da Copa do México foi Juanito, um menino sorridente que aparecia com um sombrero e uma bola sob seu pé direito. Quem odiou a figura foram os mexicanos: "horrível, óbvio, de mau gosto, perigosamente folclórico e insultuoso".
Frei Paulo se transformou numa cidade em êxtase ao fim daquela partida. Alheio à realidade política da época, corri alegremente pelas ruas, gritando Brasil, Brasil Brasil e comemorando aquele momento de gloria inesquecível. Em 1970, o Brasil vivia a euforia do "milagre econômico" com o PIB crescendo a taxas elevadas, concomitantemente a uma enorme repressão política sob a vigência do AI-5. O governo do general Médici (1969-1974) utilizou-se da vitória da seleção no México para reforçar sua campanha ufanista, sintetizada no lema: "Brasil, ame-o ou deixe-o."

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Todos preferem a avenida


Um grupo de amigos segue para a avenida. Passamos em frente ao antigo Talho Municipal prédio antigo onde funcionou uma serraria. Lá dentro um único funcionário ás voltas com enormes tábuas entre maquinas e montanhas de pó de serra. Airton de Nicinha grita na porta “ÊÊ Zé Calolô, cabelo de ourôrô” isso deixa furioso o baixinho, filho mais velho de Seu Hilarino e D. Caçula. Ele vem com uma ripa na mão e o grupo corre em direção à avenida onde a pelada era diversão garantida. A turma era de colegas bons de bola, se reuniam toda tarde, Marquinhos de Daniel, Mario de Tonho de Dalila, Bruglei filho de Nete e Tonho, Celso de Zé Pequeno. Bento de Diógenes e muitos outros. As partidas eram vez por outra interrompidas pela passagem de grandes boiadas, elas vinham do beco do monturo avançavam pela avenida de dimensões continentais indo até a casa de Seu Zequinha, a última da Avenida que na verdade era um sítio incrível onde se cultivava toda sorte de frutas e até mesmo pimenta do reino. Ali todo o gado simplesmente desaparecia tomando o rumo da Imbira.
Toda vez que essas boiadas passavam era um show de vaquejada. Um garrote cismava em voltar à fazenda de origem e a Avenida José da Cunha era o local escolhido para o ilustre ruminante, numa disparada alucinante desafiar os vaqueiros. Estes em seus cavalos partiam velozes para cercar o animal e trazê-lo de volta à boiada. A impressão que se tinha era que eles passaram meses e meses ensaiando aquela linda performance. Todo rebanho que passava dava seu espetáculo, e nós interrompíamos o jogo para assistir com o maior prazer. Bem diferente eram os comboios de burros egressos do alambique, esses por sua vez vinham na direção contrária, cada um trazendo dois barris de cachaça. Esses animais conformados, não faziam qualquer estardalhaço simplesmente trotavam ligeiros levando sua preciosa carga em longinquas viagens.
Sim, era na avenida a residência de muitos personagens marcantes, ali também ficava o Fomento onde em qualquer distração de seu Manoel do Fomento, seu administrador, sorrateiramente adentrávamos a fantástica fábrica. Ficávamos escondidos entre fardos de lã e montanhas de algodão em travessuras impagáveis, saltos desconcertantes e brincadeiras de “mãozo” que duravam horas e horas de puro divertimento. No fim da tarde saia todo mundo com a pele encaroçada pela alergia provocada pelo algodão. Atrás de álcool para amenizar a coceira.
As peladas na avenida eram sempre interrompidas, daqui a pouco uma nuvem se aproximava. Eram as tanajuras que eram recebidas com cantigas pela molecada: “cai cai tanajura na panela da gordura”. A nuvem passava entre os oitizeiros e os moleques a gritar e encher bolsas de papel, pedidas nas bodegas. Quando perdem as asas as tanajuras parecem formigas gigantes. Elas de fato são mesmo formigas, serviam para muitas brincadeiras e inclusive para tira-gosto para um grupo de biriteiros que se instalava ali em frente a bodega de Seu Jozino. Até mesmo as tanajuras preferiam a avenida para cumprir sua sina. A avenida sempre foi um vibrante pedaço da pacata Frei Paulo, com sua poeira vermelha às vezes contemplada em pequenos tornados.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Senhor dos Sapos


Saímos da igreja naquele domingo, todos impressionados com as duras palavras do padre João Lima. Naquele dia a pregação foi uma implacável lição na molecada. Ele chamou a atenção das mães e cobrou uma providência para as molecagens que imperavam na cidade. Sugeriu surras e castigos. Eu sai dali sem graça, como se sobre os meus ombros pesasse todo o opróbrio dos malfeitos da cidade. Ele estava muito chateado com atitudes de vândalos que estavam depredando o educandário, quebrando os filtros e sujando as paredes. Nunca gostei de fazer esse tipo de coisa, preferia mais as molecagens que não causassem prejuízos materiais. Pra falar a verdade eu gostava muito mais das xingas do que da traquinagem propriamente dita.
Sem graça li a carta de São Paulo aos Corintos e sai naquele dia para o recanto sacrossanto do meu laboratório de cientista louco. Fui ter com meus sapos guardados em caixas de sapato, os maiores já vistos na cidade. Houve um momento na missa que o padre discorreu sobre as sete pragas do Egito e entre elas, enfatizou a invasão dos gafanhotos. Pois não é que naquela mesma noite a cidade fora invadida por exércitos de grilos. Quando vi aquilo fiquei assustado, era uma noite de inverno e tudo parecia tão diferente. Nuvens de grilo se formavam no coreto, na porta da igreja na porta da prefeitura. Enfim onde quer que tenha uma luz acesa.
No dia seguinte libertei todos os meus sapos e estes foram ao Tanque de Beber, e em cópulas magistrais se multiplicaram aos milhares e imbuídos de uma honrosa missão por mim determinada. Até as poças ficaram coalhadas de batráquios. Como que obedecendo à ordem de rei, subiram a ladeira e iniciaram uma providencial limpeza na cidade. Somente os baratões eu pedi que os poupassem, pois sempre gostei deles e também, sapo nenhum consegue engolir um inseto daquela magnitude.
À noite reuni todo meu exercito na praça, como um déspota, puni os rebeldes, persegui e matei impiedosamente os desertores. Fui atingido por leite de sapo nos olhos, tentando fazer justiça com os próprios pés, ardeu muito, mas não fiquei cego. Mais um mito que caiu por terra. Determinei um ataque devastador aos grilos e eles me obedeceram devorando os insetos com suas hábeis linguas, ligeiras como labaredas de fogo. O resultado foi trabalho dobrado para Bizoca, ele encheu a carroça de cocô de sapo, Juca os recolheu e a vida da cidade graças a minha sapiência e heroísmo voltou ao normal.
No domingo seguinte voltei à igreja com o coração em paz, padre João me olhou com aquele olhar amoroso de sempre. Com aquele manhoso sorriso que só ele sabia dar, agradecido por eu ter salvado a cidade. Li a carta de São Paulo aos Efésios e depois sai com os amigos para planejar novas molecadas, afinal isso aqui é ou não é São Paulo Moleque? E que nuvem é aquela? É tanajura. “Cai cai tanajura na panela da gordura”

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A emancipação política de Frei Paulo


No dia 23 de outubro de 1920. Mizinha, minha saudosa avó já era uma mocinha. Por volta das 5 horas da manhã, ela acordou , naquela manhã histórica, ouvindo uma salva de morteiros. A fumaça dos disparos se misturava à neblina. Era um dia tão especial que dava para sentir nos olhares, o orgulho e a sensação de feliz cidadania contagiava todos. Os transeuntes da Vila São Paulo deixaram de lados seus trajes simples do cotidiano, calças de cutin e as botinas de couro conhecidas por roló, para usar suas melhores vestes, afinal o dia era especial e de festa cívica. Essa foi a data que a União Lira Paulistana mais tocou seus lindos dobrados. Comerciantes, industriais, pecuaristas da região vestiram-se a caráter, nos seus ternos de linho branco; e imponentes percorriam as ruas em direção à Praça do Mercado, que era a praça do coreto. Ali houve o asteamento do pavilhão nacional em frente à intendência.
Teve início então, a solenidade de comemoração da emancipação política de nossa cidade. O Dr. Gentil Tavares leu diante de todos o decreto do Governador Pereira Lobo que elevava a Vila São Paulo à categoria de cidade, tornando-se independente da Vila de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Em seu vibrante discurso, explicou que de agora em diante a cidade estaria independente podendo ter seu prefeito eleito com o voto soberano do povo. A alegria foi grande neste momento e os aplausos e sorrisos anunciavam uma grande batalha vencida. Após a missa, realizada às 9 horas na matriz, contando com ilustres presenças do Conselho Municipal, dos futuros membros do Poder Judiciário. O prefeito Major Tibério Teixeira foi empossado logo em seguida pelo juiz Dr. Flávio.
Houve um desfile muito bonito que percorreu as ruas da cidade, às 15 horas, em sua residência o prefeito Major, deu uma recepção na qual participaram os mais importantes segmentos empresariais da cidade e também todas as pessoas que quisessem cumprimentar o novo prefeito. A festa avançou naquela tarde inesquecível. E, em frente à prefeitura o Dr. Gentil Tavares realizou uma sessão cívica em homenagem ao Governador Pereira Lobo e ao Capitão João Tavares que recebeu o título de filho mais ilustre do novo município. Uma homenagem justa e mais que merecida, pois foi ele o maior articulista da emancipação política de nosso município. Há poucos dias houve um desfile das escolas comemorando essa data, ela é muito importante porque marca uma nova era de progresso e desenvolvimento de nossa cidade.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A paixão por carros


Quem poderia esquecer aquela tragédia. Edmundo entrou com tudo na curva da praça. Aquilo era comum entre os caminhoneiros, sempre abusavam naquela curva descendo a Rua de Itabaiana. Mas naquele dia a cidade calou com tamanha calamidade. O carro ainda derrubou o muro da casa de Vado. Cleidinaldo que escapou fedendo de um acidente num bugre dirigido pelo primo rico na estrada de Carira morreu sob toneladas de madeira também faleceu Jorge do Relojoeiro e outro menino filho de Zacarias. Josinaldo ficou gravemente ferido.
O tempo foi longo para esquecer essa tragédia, somente outras que se sucederam. Nego Rico caminhoneiro tarimbado sofrera um acidente de caminhão e amargou anos de reclusão sobre uma cama. Ele era irmão de Edmundo e Tita, ambos também caminhoneiros. A intrínseca relação com caminhões sempre resultou em muitas perdas, se fosse para citar os que tiveram suas vidas ceifadas em acidentes na Rio Bahia, eu ocuparia todo o texto desta singela croniqueta. Mas alguns nomes não podemos esquecer, como Duger, em plena flor da juventude, Aguinaldo, Carlos de Regener,Tonho de Pequeno, Buchinha, Zé Onofre e tantos outros.
Zé Onofre era dono do único posto de gasolina da cidade naquela época. Um dia ele vendeu seu posto e comprou um caminhão Mercedes Benz, conhecidos nas estradas como boiadeiro, É aquele que possui uma gaiola para o transporte de gado. Era comum esse trânsito de boi para o estado de Minas e isso gerava renda para os caminhoneiros . Ele morreu em um grave acidente ao bater com uma carreta carregada de betume. O incêndio queimou a todos e seu corpo voltou a Frei Paulo carbonizado, foi uma tristeza muito grande para a cidade.
Também vimos João Tandola dirigindo uma caçamba, despencar em um precipício na Serra Redonda e após dezenas de capotagens sair incólume, e continuar dirigindo alucinadamente durante a construção da BR 235 que corta Frei Paulo. Outro chofer afoito que fez história foi Zé de Carmem que transportava nossa turma em passeios para a Ribeira , Rio das Pedras e Poço das Moças. “Quando ele bebe dirige melhor ainda”, inventaram esse mito. Ele também levava grupos em seu caminhão para assistir partidas de futebol no Batistão.
A paixão por caminhões e carros sempre esteve associada a mortes e mutilações. O primeiro automóvel de Frei Paulo foi trazido por Totonho Mulungu, era um V 8, sucesso principalmente à noite com os faróis da fobica acesos. Isso aconteceu num tempo que nem se sonhava com energia elétrica. Lá pelos anos 50. As ruas eram iluminadas com lampeões à querosene que logo eram apagados e as casas luz de candeeiro. Depois vieram as empresas de ônibus. A primeira marinete quem trouxe foi Josias Tabaréu . Diógenes também era dono de uma delas antes de fundar o seu bar “O Exato” que ficava ali onde hoje funciona o Banese. Motoristas como Mané de Lunga, cuidadoso e responsavel brincam com seus netos. Os afoitos provocam tragédias, em Frei Paulo foram muitas.
Muito antes de pegar num carro e dirigir, fui piloto de carroça na feira , sendo um dos preferidos pelas velhinhas, rápido, barateiro e respeitador. Clientela garantida. Melhor do que carro de ladeira a caminho do tanque.Descendo todo santo ajuda. Naquele dia eu e o galego de Ranulfo,estávamos radiantes. Ele obcecado por carro, conseguia deixar qualquer um brilhando em troca de uma voltinha que fosse. Eduardo era muito esperto e sabendo dos planos de Abdias o relojoeiro, então partimos para o ataque. O velho não sabia dirigir e estava em transe, feliz da vida com seu novo brinquedo.
Abdias passava o dia em sua relojoaria com aquele mine telescópio nos olhos consertando relógios de corda, sua renda era boa e a noite com um violão participava com muito fervor dos cultos evangélicos da Igreja Presbiteriana na Rua de Itabaiana. Era ele também o pai de Zé da Tampa, Maria e Conceição. Um crente atuante, exemplar que não escondia sua paixão pelos automóveis. Se isso é pecado, ele não resistiu à tentação. Com o dinheiro apurado na indenização pela morte do filho, comprou aquele TL cinza e chamou logo quem para assessoria, eu e o galego de Ranulfo.
A primeira viagem foi para Itabaiana, Eduardo ao volante seguindo de pé embaixo rumo à terra da cebola. Lá chegando fomos para a feira e depois passear na periferia com aquele TL tinindo, quase novinho. Quando paramos ali próximo ao Estádio Presidente Médice, era chegada a tão sonhada hora de assumir o volante, fui logo abrindo a porta. Neste momento ia passando um caminhão e levou a porta do TL, foi horrível Abdias ficou fulo e não parava de falar mal da gente. Em instantes seu sonho estava desfeito. O TL estava todo empenado. Depois que comentamos isso, disseram que foi um castigo, Deveria ele segundo o povo, ter feito a carneira do filho.

domingo, 1 de abril de 2012

Sábado no Cine São Jorge


O cine São Jorge era a casa mais alegre de Frei Paulo. Ali assisti a muitos filmes. Às vezes me ponho a pensar de como eram gratificantes aqueles tempos. Vem logo à mente o cheirinho da pipoca que era vendida ali na porta por Manoel. Era uma pipoca que tinha um sabor especial. Quando não se tinha dinheiro ele nos dava um pouco numa canequinha e saia-se feliz da vida com a pipoca quentinha nas duas mãos. Os anos se passaram e Manoel passou a ser dono do cinema. Lembro dos cartazes bem na frente do cinema, no hall de entrada . O dono era Vado, depois Aguinaldo de Senhor de Cazuza e por último Manoel de Casaca Preta. Vado ficava, às vezes, na entrada recolhendo os ingressos e colocando numa caixa de vidro.
Do outro lado, bem em frente ao cinema ficava a casa das Eulinas, ali as balas artesanais, tão gostosas, eram vendidas em cordas cuidadosamente enrolada em papel manteiga. Balas de leite, banana e mel que derretiam na boca enquanto passavam os trailers, antes de começar a seção. Na casa era um entra e sai permanente de meninos e meninas e elas sorridentes, nos atendia entre bibelôs e rococós. Uma das irmãs, Eulina Pequena era a mais séria. Muito amiga de minha avó D. Mizinha, um dia escreveu algo muito bonito sobre minha querida avó. Na sala havia um lindo relógio antigo, onde parávamos no tempo só para observar quando soavam as badaladas, era simplesmente encantador.
Nada se compara às diversões do cinema, as películas não eram por nós assistidas, eram vividas intensamente. Quando passava os de Karatê, protagonizados pelo imortal Bruce Lee, a molecada sai pela rua desferindo golpes de Karatê pelo ar. As impagáveis comédias de Mazzaropi provocavam longos risos que era um balsamo para a alma. Outro gênero preferido era o faroeste, com destaque para “O dólar furado” e “Se encontrar Sartana reze por sua morte”. Sem esquecer evidentemente dos westerns de Giuliano Gema e Django. Policiais como 007 e os que tinham o ator principal Charles Bronson também atraiam seu público.
O auditório era bem amplo com cadeiras confortáveis em madeira envernizada e a tela bem grande nos dava a impressão de estar vivendo as cenas. Na parte de cima ficava a sala de projeção e mais cadeiras. Olhando pelo buraco da fechadura eu via lá dentro, Seu Valdomiro de óculos de grau, compenetrado comandando aquela grande parafernália, rebobinando as fitas e passando com as latas onde estavam os filmes. Com a mesma dedicação dava-se ao fabrico de móveis numa oficina do mesmo patrão na avenida, esquina com o Beco do Graco durante toda a semana. A exibição durava em média duas horas e era interrompida a cada uma hora, acendia-se as luzes enquanto trocavam o rolo no projetor. Quando o filme era maçante, ouvia-se no meio da exibição gritos do tipo: “Quero meu dinheiro”. E cuidado redobrado para não pegar chiclete nos cabelos.
O cine São Jorge às vezes dava lugar a apresentações artísticas, ali eu já assisti diversos shows, entre os quais: Siri do Forró, Valdick Soriano, Luis Gonzaga entre tantos outros. Apresentações de teatro era também certeza de casa cheia. Os programas de auditório também aconteciam ali, eram comandados por Luis Trindade sob os acordes da orquestra Brasa 10. E também o programa Reinaldo Moura num oferecimento de Farmácia São Paulo e ... Zé Totonho. As versões locais dos programas de auditório com apresentações de calouros, eram comandadas por Pedro de Elpídio e os prêmios para os vencedores. Ah! os prêmios: Latas de goiabada, sardinha etc. Duvido que outras cidades interionas de Sergipe tenham vivenciado tamanha efervescência cultural.